19.7.11

Madame Solange

Madame que se preza não faz questão de gastar uns trocados com uma bagatela. Vá e escolha a marca, o modelo e a cor. Disse, sentada no lounge da loja, ao rapaz de camiseta baby look colada no corpão anabolizado e cheio de tatuagens. Nada de pele engelhadinha. Madame Solange cheira a lavanda. Francesa. Uma vida de perfume. Muitos hidratantes. Muitos aromas. Madame que é Madame chama a atenção pelo rastro, pelo cheiro. Cabelos sempre arrumados. Pronto, é o seu presente de Natal. Agora, me leve para dar umas voltinhas no seu Porshe, gatinho. O boy de sobrancelhas feitas guiava o carrão com um sorriso largo. Alex passa a marcha e Madame passa a marcha em Alex, pra cima e pra baixo. Madame Solange usa lingerie La Perla, mas dessa vez saiu apenas com um vestidinho casual Donna Karan, um óculos Bulgari e algumas jóias Antonio Bernardo. Uma abertura de pernas para Alex levar o carro com uma mão. O celular de Madame soa, mas ela diz que ele pode continuar massageando seu clitóris. Alô? Oi Acácio, oi querido, tudo ótimo. Isso, isso, não, quero o divã Ralph Lauren, aquele revestido de couro e com mogno reluzente. Obrigada, querido, beijinhos. É o meu arquiteto, disse Madame. Madame adora grife. Pare o carro no próximo quarteirão, Alex. Pronto, agora eu quero que você me coma, aqui mesmo, dentro do Porshe. Alex jorrou seu esperma nutrido na cara de madame e, juntos, brindaram com champanhe Cristal. Madame adora homens mais novos. Homens malhados. Tatuados. Tarados. De preferência das classes C, D e E, e que fale pobrema, como o Alex. Carinhoso, como o Alex. Sem frescuras, como o Alex. Era mesmo que um filho, recebia todos os mimos de Madame. Esforçado, fez o supletivo e entrou no curso técnico de radiologia. É uma área que tá crescendo, disse à Madame. E Madame via o negócio crescer. Na sua mão. Paga todo mês para ver o crescimento. Não quero mais você usando desodorantes, nem perfumes, ouviu? Madame estava cansada dessa vida limpinha, cheirosinha, de creminhos para o rosto, cabelos, mãos e pés. Quer o outro lado. Quer a pobreza e seus aromas. Suor e fuligem. Alex passou a usar a mesma roupa, nada de tomar banho e escovar os dentes, comendo do bom e do melhor naquela cobertura luxuosa de Madame. Vinhos das melhores safras, queijos importados. O apartamento foi ficando com aquele azedume. De queijo e de suor. No caminho do curso, Alex conheceu outra viúva. Sozinha na podridão do apartamento, sozinha no banheiro, Madame foi ao chão. Não conseguiu mais se levantar. Ninguém apareceu na cobertura. Nenhum técnico de radiologia. O divã de Madame foi despachado dentro de um container, por via aérea. Ninguém para receber.

COREGA

Tudo posso naquele que me fortalece. Disse a evangélica, em transe, segurando a dentadura.