1.8.11

Sol

As mesinhas e cadeiras de alumínio, os sofás revestidos de shantung de seda prata e o minipalco de madeira dão leveza e sofisticação ao ambiente. É o happy hour predileto de Sinval e seus colegas do escritório. Às dezenove horas, Solange, anunciada carinhosamente como Sol, surge no palco sentada em uma cadeira de design inovador. Vestida num vestido verde, geme com os lábios vermelhos ao som de Erotica. Tira aos poucos as peças de roupa. O foco de luz lilás ilumina sua lingerie laranja. Os olhos de menina meiga e as curvas de mulher fatal fazem com que os marmanjos afrouxem as gravatas e relaxem com umas doses de uísque doze anos. Sol, sensual , serpenteia suave seu corpo de sereia. L-i-n-d-a. É a sensação das sextas-feiras. A única da casa que não se levanta da cadeira. Um verdadeiro fetiche para os homens que ficam imóveis como o móvel. Sinval avança para perto de sua musa e coloca umas cédulas de cem reais próximo aos seus pezinhos delicados, como ingresso para algo além do voyeurismo. Sol faz uma sequência sexy em slow motion na direção de Sinval, sem sair da cadeira majestosa, tira a calcinha e oferece. Ele leva ao nariz e inspira de olhos fechados, como uma mulher cheira uma rosa. Ele se sente o máximo e olha para os colegas vitorioso. A esposa nunca fez um striptease para ele. Pede, mas ela não sabe fazer. Não é ousada, não é quente como Sol. Volta para a mesa e todos brincam: ah, tá querendo tapar a Sol com a peneira, hein? Sinval conseguiu o número de telefone da garota sedutora e ligou assim que terminou a apresentação. As luzes do palco se apagam e as cortinas se fecham. Sol: boa noite, quem deseja? Oi, meu raio de sol, peguei seu telefone quase agora no Club Baden-Baden. Ah, sim, o senhor grisalho de paletó. Isso, isso, como faço para gente sair? Venha me buscar no camarim. Só se for agora, por onde entro? Na lateral do palco tem um porta falsa, estou te esperando. Sinval adentra o camarim. Sol está com um vestido longo deitada num sofá, tomando um coquetel de frutas. Sinval se aproxima um pouco nervoso. Sol pendura-se em seu pescoço. Me leva pro seu carro, gatão. Claro, meu anjo. Por ali, ela apontou para a porta de serviço. Sinval coloca a princesa no banco do passageiro, cortês. Estacionou na vaga do motel luxuoso. Me leve nos braços até a cama, vai. Transaram até a total exaustão dos sentidos. Onde posso te deixar, minha deusa? Pode me deixar na Adelardo Soares. Ponha-me nos braços, meu garanhão gostoso. Repetiu o gesto galanteador e romântico e levou Sol nos braços até o carro. No endereço combinado, abriu a porta e antes que ela pedisse, pegou-a nos braços novamente e colocou-a na calçada, piscou o olho e ligou a ignição. Pelo espelho retrovisor percebeu que Sol era coxa.

3 comentários:

Brenno Almeida disse...

machado e cleyton ... cada um com sua coxa !

Sentilavras disse...

Três trechos geniais num texto só?!

"Sol, sensual, serpenteia suave seu corpo de sereia."

"Sol faz uma sequência sexy em slow motion na direção de Sinval, sem sair da cadeira majestosa, tira a calcinha e oferece. Ele levou ao nariz e inspirou de olhos fechados, como uma mulher cheira uma rosa."

"Voltou para a mesa e todos brincaram: ah, tá querendo tapar a Sol com a peneira, hein?" Eu ri mto, bem como do comentário do Brenno! rs


Antes de chegar ao final, por um momento, pensei que Sol fosse paraplégica!

Gerusa Leal disse...

Bom demais, Cleyton. Redondinho. E que desfecho.