19.12.11

Inventário

um par de olhos apertados e um sorriso frouxo

palavras

palavras

palavras

dois braços de abraçar

400g de um músculo vermelho e vivo

15.12.11

Era uma vez

Mickey Mouse no lugar do parto prematuro, Branca de Neve no lugar do derrame cerebral, Pinóquio no lugar do enfisema, Hércules no lugar do câncer de boca, a Pequena Sereia no lugar do envelhecimento precoce da pele, Cinderela no lugar da pneumonia. Também gosto do Pato Donald, do Pluto, do Pateta e do Rei Leão. Toda vez que voinho ia ao centro, ele trazia adesivos dos meus desenhos prediletos. Eu colava no caderno, na parede do meu quarto e no espelho do guarda-roupa. Passávamos a tarde inteira colando adesivos em folhas de papel sulfite, misturando os personagens e criando histórias entre eles. As folhas brancas se transformavam num gibi maluco: Aladin conquistando o coração da Bela, e a Fera se apaixonando por Pocahontas; Ariel namorando com Peter Pan no fundo do mar; Alice matando os 101 Dálmatas no País das Maravilhas; a Bela Adormecida apaixonada pelo Concunda de Notre Dame. E ríamos no final da história. Eu aguardava ansiosa para o sábado chegar e voinho voltar do centro cheio de adesivos. Ele também colecionava. Voinho colava atrás dos cinco maços de cigarro que fumava por dia, para esconder aquelas imagens horríveis. Todo sábado quando volto ao centro, passo no túmulo de voinho para colar um adesivo do Mickey, da Branca de Neve, do Pinóquio.

30.11.11

Um quê de Almodóvar

Ela pergunta o nome dos garçons por educação, pois não guarda nenhum. Ela adora o gosto de oceano. Mais um temaki de peixe branco, pede risonha a Anderson, o garçom simpático. Ela chamava a atenção de todos: o decote nos seios turbinados, a altura, a gargalhada mostrando os dentes branquíssimos, a voz na contramão, as unhas com cor exótica. Ela.

11.11.11

Guiness Book

vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco vuco-vucovuco-vuco vuco-vuco vuco-vuco e ele conseguiu gozar às 11:11 am de 11/11/11.

31.10.11

Coronhada

Penso que sim. Que se você esquecer o espelho retrovisor nossos olhos entrarão em colisão a 200 km/h. O amor é um acidente em potencial. Quando seus olhos esbarram em outros olhos você já aceita a morte como companhia. É um velar infinito. Pequenos delírios: mulher sacode com violência o carro, mas o bebê não acorda. O marido aponta o revólver em sua direção. Na direção de quem? O amor é um estado de febre permanente. Penso que sim. Que se você encostar seus dedos nos meus, na sala do cinema, passará um filme das nossas vidas na grande tela. E quando subirem os créditos teremos a certeza de que chegou ao fim. Uma nota: o amor é uma arma. Com ou sem balas.

21.10.11

Drama

Hoje inventei cinema
para te fazer companhia
hoje tirei o dia
para entreter a solidão.

18.10.11

Romance

Eu viajo no cheiro do café. Quando eu trabalhava numa fábrica em São Paulo, subia aquele cheiro, disse fazendo movimentos circulares com o copo no ar. Depois do primeiro gole ficamos mudos por alguns segundos. Parecia ser quente. As pessoas acordam frias ou quentes? Umas olham para o espelho, lavam o rosto, escovam os dentes, comem algo. Outras tomam uma ducha fria e só escovam os dentes depois do café-com-pão. Mas todas (todas) têm cara de trinta anos, incrível. Qual a sua idade? Trinta e cinco. Respondeu com cara de trinta. Sabia, sabia que você era um trintão. Sorveu o último gole de café e saíram da rodoviária à procura do motel mais próximo. Ela fez questão de pagar o café depois.

17.10.11

Jardim

HOMEM 1 Estou sem saco.
HOMEM 2 Operou?
HOMEM 1 Sim. O médico pôs o pênis para dentro. Agora tenho uma papoula entre as pernas.
HOMEM 2 Como você sonhava: um jardim abaixo do ventre.
HOMEM 1 O perfume à flor da pele.
HOMEM 2 Manhãs gerânios, tardes magnólias, noites rosas.
HOMEM 1 Obrigado por regar esse sentimento que cresce a cada abraço encharcado.
HOMEM 2 Não agradeça. Tudo isso foi plantado por você. E eu ainda era tão semente.
(abraçam-se como se tivessem numa roda gigante)

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Trecho do meu novo texto para teatro.

15.9.11

Primeiro socorro

Buraco. - Bota açúcar! Não tem jeito. Sangra. - Dá um ponto, esparadrapo. Às vezes acaba assim. Mesmo fazendo-se valer do Oi! uma hora ou outra. É quando você coleciona os não-telefonemas, os não-encontros. Tem alguma coisa diferente, fora do lugar e insiste na falta de tempo. - Estou numa correria danada. Corrida de lados opostos, só pode ser. Norte e Sul. O peso da âncora na garganta. Estranhamentos cais. Afundou sem o movimento de acenar com o lenço.

6.9.11

Casal

Chega de fazer compras de supermercado sozinho. Quero ter com quem discutir a escolha da marca da bolacha e dividir a mesma no café da manhã. Chega de descer do apartamento sozinho. Quero ter com quem conversar amenidades na hora de levar o Fred para passear e fazer cocô. Quero dividir o lençol, o brigadeiro de panela, as contas. Chega mais.

1.9.11

Anúncio

Hoje decidi fazer uma campanha diferente. Propagar suas qualidades e defeitos. Não adianta fazer essa cara, seria antiético anunciar apenas as qualidades. No meio do brainstorm me perdi em algumas palavras como troglodita, sagaz, insegurança, olhos amêndoas, dentes tortos, pelos, doçura, máscara, têmporas. Depois de muitas associações pensei em deixar você sem roupa no anúncio, mas talvez ficasse muito apelativo, apesar de que quando pensei em colocar você despido, não associei a nenhum apelo sexual, queria você sem capa de proteção. O mais natural possível para que a imagem seja verossímil, mesmo sua imagem sendo uma representação do real, ok? Tudo bem, então você fica com uma t-shirt básica preta, sem sorrir, mas também sem fazer cara sensual. O cenário será a estação Paraíso em horário de pico. Transeuntes borrados atrás e só você no foco. O metrô borrado também. Algo que soe como uma certa instabilidade. Pronto. Algumas horas no photoshop. Seu nome e sobrenome como título. Uma ou duas linhas de texto emocional e na assinatura, um telefone de contato. Hoje decidi vender você.

31.8.11

Pequenos sonhos

Fumou um cigarro barato ao mesmo tempo em que limpou os dentes com fio-dental olhando o reflexo no vidro da lateral do carro. A calçada fedia. O céu estava azul azul, um azul-mar. Ela estava a mar aberto naquela rua, em frente ao mercado público. Pública. Para todo mundo ver. Ela só queria ser feliz.

28.8.11

CURTA - CENA I - Tarde - Vão do MASP

- Você se parece muito com uma amiga.
- Sério?
- Muito mesmo, principalmente assim de perfil.
- Engraçado, as pessoas dizem isso. Eu tenho um rosto comum.
- Não é comum.
- Que loucura. Estou esperando uma pessoa e ela não chega.
- É péssimo esperar, né?
- Você não gosta?
- Você gosta?
- Normal.
- Eu estava comprando uma casa no Butantã. É uma casa linda, mas no meio da negociação o proprietário alugou. Se ele tivesse vendido, tudo bem. Mas sabe quando você tem certeza de que aquilo será seu?
- Humrum.
- Você mora com seus pais.
- Moro sim.
- Legal né, morar com os pais?
- É muito legal. Você só tem essas duas tattoos?
- Tenho mais uma nas costas.
- Asas?
- Dragão.

27.8.11

Amor em doses cavalais

O colostro é um leite riquíssimo em anticorpos que a mãe passa para o filho nos primeiros minutos de vida, mas a alimentação do potro inicia-se já na barriga da mãe, desde o terço final da gestação, continuando através da égua até o desmame. Expedito é médico veterinário, apaixonado pela profissão. Em criança, pegava cachorros e gatos abandonados na rua e levava para sua casa que parecia um verdadeiro jardim zoológico. Dito, como era chamado pelos amigos e parentes, se especializou em equinos. Casado com Elis. Conheceram-se num supermercado. Ela não alcançava o molho de tomates secos na prateleira superior e ele cortês apanhou o vidro pra ela, que agradeceu com um sorriso. Conversaram um pouco na fila do caixa, saíram e tomaram alguma coisa. Foi amor à primeira vista. Em uma semana já planejavam casar, ter filhos, essas coisas. Elis é economista, também apaixonada pela profissão. Em criança, não pegava animais abandonados na rua, se especializou em números. Tudo para ela é contabilizado. E gostava especialmente do número dois. Casaram-se no dia dois de fevereiro, às duas da tarde, com dois pares de honra, duas pessoas celebraram o ritual e apenas os dois foram para a lua-de-mel, é claro. As duas alianças foram trazidas do Egito, lindas. Ontem, Dito demorou para chegar em casa, ele trabalha em fazendas. Amor, você tá onde? Estou a caminho. Ela ansiosa e com fome ligou novamente. Amor, que demora, onde você tá? Dei uma paradinha no posto, chego já. Expedito, eu tô com fome, que demora é essa, hein? Ele não conseguiu mais e abriu o jogo: amor, eu perdi a aliança. O queêêê? Como assim? Ela já estava berrando ao telefone. É que eu tive que examinar uma égua na fazenda de Aldo e tirei a aliança, coloquei numa pasta mas não estou achando, já procurei na pasta e nada. Elis não acreditou na história e quando ele chegou em casa ela desabou no choro. Invente outra história. Por que não deixou a aliança em casa? Ela gritava e chorava ao mesmo tempo. Ele pedia calma, meu amor acalme-se, eu pedi pro caseiro procurar e qualquer coisa me ligar. Vou ligar para Aldo, ela disse. Ligou. Pelo papo, parecia que ele havia perdido a aliança lá mesmo. Depois de uma semana seo Antônio, o caseiro da fazenda de Aldo, ligou para dizer que achou a aliança perto de uma árvore. Elis pediu desculpas e comemorou sem anticontraceptivos, ela queria ser mãe. E foi. Colocou o nome do pai na criança, como homenagem. Dito não chegou a conhecer o filho. O acidente de carro veio antes do nono mês de Elis.

1.8.11

Sol

As mesinhas e cadeiras de alumínio, os sofás revestidos de shantung de seda prata e o minipalco de madeira dão leveza e sofisticação ao ambiente. É o happy hour predileto de Sinval e seus colegas do escritório. Às dezenove horas, Solange, anunciada carinhosamente como Sol, surge no palco sentada em uma cadeira de design inovador. Vestida num vestido verde, geme com os lábios vermelhos ao som de Erotica. Tira aos poucos as peças de roupa. O foco de luz lilás ilumina sua lingerie laranja. Os olhos de menina meiga e as curvas de mulher fatal fazem com que os marmanjos afrouxem as gravatas e relaxem com umas doses de uísque doze anos. Sol, sensual , serpenteia suave seu corpo de sereia. L-i-n-d-a. É a sensação das sextas-feiras. A única da casa que não se levanta da cadeira. Um verdadeiro fetiche para os homens que ficam imóveis como o móvel. Sinval avança para perto de sua musa e coloca umas cédulas de cem reais próximo aos seus pezinhos delicados, como ingresso para algo além do voyeurismo. Sol faz uma sequência sexy em slow motion na direção de Sinval, sem sair da cadeira majestosa, tira a calcinha e oferece. Ele leva ao nariz e inspira de olhos fechados, como uma mulher cheira uma rosa. Ele se sente o máximo e olha para os colegas vitorioso. A esposa nunca fez um striptease para ele. Pede, mas ela não sabe fazer. Não é ousada, não é quente como Sol. Volta para a mesa e todos brincam: ah, tá querendo tapar a Sol com a peneira, hein? Sinval conseguiu o número de telefone da garota sedutora e ligou assim que terminou a apresentação. As luzes do palco se apagam e as cortinas se fecham. Sol: boa noite, quem deseja? Oi, meu raio de sol, peguei seu telefone quase agora no Club Baden-Baden. Ah, sim, o senhor grisalho de paletó. Isso, isso, como faço para gente sair? Venha me buscar no camarim. Só se for agora, por onde entro? Na lateral do palco tem um porta falsa, estou te esperando. Sinval adentra o camarim. Sol está com um vestido longo deitada num sofá, tomando um coquetel de frutas. Sinval se aproxima um pouco nervoso. Sol pendura-se em seu pescoço. Me leva pro seu carro, gatão. Claro, meu anjo. Por ali, ela apontou para a porta de serviço. Sinval coloca a princesa no banco do passageiro, cortês. Estacionou na vaga do motel luxuoso. Me leve nos braços até a cama, vai. Transaram até a total exaustão dos sentidos. Onde posso te deixar, minha deusa? Pode me deixar na Adelardo Soares. Ponha-me nos braços, meu garanhão gostoso. Repetiu o gesto galanteador e romântico e levou Sol nos braços até o carro. No endereço combinado, abriu a porta e antes que ela pedisse, pegou-a nos braços novamente e colocou-a na calçada, piscou o olho e ligou a ignição. Pelo espelho retrovisor percebeu que Sol era coxa.

28.7.11

21.7.11

Joguete

Dominó porrinha buraco
o meu o teu
nossos dedos em jogo.

Cachaça caju de tira-gosto quartinho
teu sumo translúcido
nossos corpos bêbados.

É. Homens também amam.

19.7.11

Madame Solange

Madame que se preza não faz questão de gastar uns trocados com uma bagatela. Vá e escolha a marca, o modelo e a cor. Disse, sentada no lounge da loja, ao rapaz de camiseta baby look colada no corpão anabolizado e cheio de tatuagens. Nada de pele engelhadinha. Madame Solange cheira a lavanda. Francesa. Uma vida de perfume. Muitos hidratantes. Muitos aromas. Madame que é Madame chama a atenção pelo rastro, pelo cheiro. Cabelos sempre arrumados. Pronto, é o seu presente de Natal. Agora, me leve para dar umas voltinhas no seu Porshe, gatinho. O boy de sobrancelhas feitas guiava o carrão com um sorriso largo. Alex passa a marcha e Madame passa a marcha em Alex, pra cima e pra baixo. Madame Solange usa lingerie La Perla, mas dessa vez saiu apenas com um vestidinho casual Donna Karan, um óculos Bulgari e algumas jóias Antonio Bernardo. Uma abertura de pernas para Alex levar o carro com uma mão. O celular de Madame soa, mas ela diz que ele pode continuar massageando seu clitóris. Alô? Oi Acácio, oi querido, tudo ótimo. Isso, isso, não, quero o divã Ralph Lauren, aquele revestido de couro e com mogno reluzente. Obrigada, querido, beijinhos. É o meu arquiteto, disse Madame. Madame adora grife. Pare o carro no próximo quarteirão, Alex. Pronto, agora eu quero que você me coma, aqui mesmo, dentro do Porshe. Alex jorrou seu esperma nutrido na cara de madame e, juntos, brindaram com champanhe Cristal. Madame adora homens mais novos. Homens malhados. Tatuados. Tarados. De preferência das classes C, D e E, e que fale pobrema, como o Alex. Carinhoso, como o Alex. Sem frescuras, como o Alex. Era mesmo que um filho, recebia todos os mimos de Madame. Esforçado, fez o supletivo e entrou no curso técnico de radiologia. É uma área que tá crescendo, disse à Madame. E Madame via o negócio crescer. Na sua mão. Paga todo mês para ver o crescimento. Não quero mais você usando desodorantes, nem perfumes, ouviu? Madame estava cansada dessa vida limpinha, cheirosinha, de creminhos para o rosto, cabelos, mãos e pés. Quer o outro lado. Quer a pobreza e seus aromas. Suor e fuligem. Alex passou a usar a mesma roupa, nada de tomar banho e escovar os dentes, comendo do bom e do melhor naquela cobertura luxuosa de Madame. Vinhos das melhores safras, queijos importados. O apartamento foi ficando com aquele azedume. De queijo e de suor. No caminho do curso, Alex conheceu outra viúva. Sozinha na podridão do apartamento, sozinha no banheiro, Madame foi ao chão. Não conseguiu mais se levantar. Ninguém apareceu na cobertura. Nenhum técnico de radiologia. O divã de Madame foi despachado dentro de um container, por via aérea. Ninguém para receber.

COREGA

Tudo posso naquele que me fortalece. Disse a evangélica, em transe, segurando a dentadura.

4.7.11

Solange Kelmy

Moderníssima. Coloridíssima. Belíssima. Bangkok nunca dorme. Solange, também não. Quer aproveitar cada minuto da viagem. Tinta nos cabelos para esconder os brancos, Renew para resolver as marcas do tempo e sempre um cigarro na boca. O relógio marcava dezessete horas e fazia um calor de matar. Enquanto dezenas de pessoas estavam praticando tai chi no Parque Lumpini, Solange Kelmy fazia os cantinhos no Templo do Monte Dourado, escondida dos monges. Cantinho sagrado. Estava deixando os pentelhos da xoxota em forma de coração. Resolveu abrir o coração entre as pernas nesta cidade moderna para salvar o casamento. Nada de massagem tailandesa. Ganhou a viagem numa promoção de creme dental. Mande três códigos de barra com a frase “Superfrash leva meu sorriso para Bangkok” e boa sorte. E a felizarda se chama Solange, espera, Solange o quê, produção? Kel-my. Solange Kelmy, que trabalha no tratamento da malária no Acre. Solange, minha filha, você foi contemplada com uma viagem de dez dias, com direito a um acompanhante e tudo pago: traslados, hotel, alimentação e passeio de elefante. Olha que tromba de prêmio, menina! Vai mostrar para todo mundo que o Acre existe. Tudo impressionava Solange em Bangkok: os letreiros luminosos, a noite agitada, as barracas que vendiam gafanhotos fritos, os mercados flutuantes, seu marido que recusou de comer seu coração.

30.6.11

Solange Suely

Peles de feijão. Restos de menstruação. Toalhas de papel afogadas no vaso sanitário rosa do Aspen Bar. Solange Suely, freqüentadora assídua do bar dos descolados, desenvolveu uma espécie de vidência aos sete anos. Um caso único na galáxia. Foi notícia em rede nacional e internacional. SUA SENSIBILIDADE DEVIDAMENTE EXPOSTA E exportada. Óóóóóóóóó, a plateia vibrava nos programas de auditórios e nos noticiários televisivos. Má digestão e combinação alimentar inadequada, demora no trânsito intestinal ou infecção são possíveis patologias que resultam no mau cheiro das fezes. Solange não explica porque o cocô flutua, nem os benefícios do hambúrguer de fezes humanas criado por um cientista japonês como alternativa para os vegetarianos. Ela identifica com precisão quem caga e quem não caga no Aspen Bar. Dom de merda. Tinha entrada vip em Teatros, restaurantes e boates e ainda esfregava na cara das pessoas: cagona! Não era pela coloração da matéria fecal nem por sua densidade, distinguia pelo odor. O cocô de Flaviano tem notas cítricas, o de Veruska é meio amadeirado, o do garçom possui notas florais, papoulas. Todas as vezes que Ray, o garçom, servia Dona Solange – sempre a chamava de dona – fixava o olhar em suas mãos, a maneira suntuosa com que segurava a piteira.

20.6.11

Por que escrevo?

A minha mão é a extensão das artérias do coração para alcançar o outro. Palavras-bomba. Escrever é uma necessidade. Básica, como saciar a sede. Escrevo para começar um diálogo. Meu com o mundo. Para não gastar dinheiro com terapia. Escrevo para ser lido. Para ser sentido. Parecer sentido. Para você se sentir incomodado, para você sorrir, para você encher os olhos de lágrimas, para você ficar sem palavras, para você me amar para sempre. Talvez me odiar. Escrevo para afastar os demônios, para tocar o dedo de Deus. Escrevo para você.

9.6.11

SANTA & PACIÊNCIA VII

SANTA – Oi amiga, já estava dormindo?
PACIÊNCIA – É né, são duas da manhã, terça-feira...
SANTA – Desculpa. É que precisava de alguém pra conversar...
PACIÊNCIA – Fala.
SANTA – E ontem não tive tempo de te ligar.
PACIÊNCIA – Pode falar.
SANTA – Ontem fui penetrada por um pênis incrível.
PACIÊNCIA – Hum. Do Mauro?
SANTA – O de Mauro é grosso, mas não é incrível, você sabe.
PACIÊNCIA – Sei. Então?
SANTA – Então, fui ao gino. Exame de rotina. Pra sair dessa rotina com o Mauro.
PACIÊNCIA – Sim...
SANTA – Queria uma penetração diferente e marquei uma ultrasonografia.
PACIÊNCIA – Sim...
SANTA – A auxiliar pegou aquele pênis enorme e branco, colocou a camisinha e foi chamar a médica. Já fiquei imaginando mil coisas. Se eu iria sentir dor. Mas como, se eu aguento a do Mauro que é mais grossa? Mas não dói com o Mauro porque estou excitada, sei lá. Bem que poderia ter um funcionário para ficar massageando o clitóris da gente, não é amiga? Enfim, a médica chegou, colocou um quilo de gel lubrificante no pinto de plástico e me penetrou. Eu tentei pensar no Mauro, mas não senti tesão. Daí comecei a pensar no seu namorado. Fantasiando apenas, só para ver se eu conseguiria.

(a ligação caiu)

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Quem desejar receber os 6 primeiros capítulos, é só me mandar um e-mail.

3.5.11

Eu-lírico, tu-lirio.

Teu poema vestido de amor
[um par de versos abertos para mim, exibindo a estrofe úmida]
Teu poema desesperado deixando meu corpo viçoso
[despindo a métrica, rimando em suor]
Teu poema em um ritmo galopante até gozar.

2.5.11

7 de Setembro

Foi bem especial a prova pública do Curso de Iniciação Teatral, pela Cênicas Cia de Repertório, ontem, no Teatro Barreto Jr. Escrevi umas das cenas (7 de Setembro) e adorei o resultado. É sempre bom ver gente nova no palco.

Conexões Urbanas
Direção: Antônio Rodrigues.
Na foto, Lúcio Jesus e Rhayana Fernandes abrilhantando a cena que escrevi. Também participou Alberico Boaventura. Parabéns, meninos, que seja feliz esse novo caminho.

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Quem quiser ler a cena "7 de setembro", mande-me um e-mail que reencaminho.

25.4.11

Amor com mais de 4 letras

Vivi entra vestindo uma roupa básica. Um coração de pelúcia preso com elástico na altura do peito. Pesca o olhar da plateia, um a um, leve.

Parte I - Amor romântico

Românticos são poucos, românticos são loucos. Desvairados. Que querem ser o outro, que pensam que o outro é o paraíso. Sede de viver, de deixar viver, de fazer viver e de ser feliz. Amor é dom da natureza. (sorriso leve) De repente fico rindo à toa sem saber por quê... (fixa os olhos em alguém da plateia) e vem a vontade de sonhar de novo te encontrar. Foi tudo tão de repente, eu não consigo esquecer. E confesso: tive medo, quase disse não. Olha, quando eu digo que deixei de te amar é porque eu te amo. Quando eu digo que não quero mais você é porque eu te quero. (pega no coração de pano) Eu tenho medo de te dar meu coração e confessar que estou em tuas mãos, mas não posso imaginar como vai ser de mim se eu te perder um dia. Quer saber a verdade? Eu sou louuuuuuca por você. Eu preciso aceitar que não dá mais para separar as nossas vidas. (para outra pessoa) Tudo o que quero... sério! Sério! É todo esse mistério... nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o meu amor, nem mais bonito. (pequena pausa) Linda! Só você me fascina. Vem, meu novo amor. Vou deixar a casa aberta. Vem! Conquistar meu mundo, dividir o que é seu. Já escuto os teus passos procurando o meu abrigo. Mil beijos de amor em muitos lençóis, só eu e você. Vem, que o sol raiou e os jardins estão florindo. (à parte) Este é o tempo ansiado de se ter felicidade. (volta para o último interlocutor) Um olhar me atira à cama, um beijo me faz amar. Não levanto, não me escondo porque sei que és minha dona! O seu olhar lá fora, o seu olhar no céu, o seu olhar demora, o seu olhar no meu, o seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu. (olha para outra pessoa) O que há dentro do meu coração eu tenho guardado pra te dar. E todas as horas que o tempo tem pra me conceder são tuas até morrer. E a tua história eu não sei, mas me diga só o que for bom. Um amor tão puro que ainda nem sabe a força que tem. É teu e de mais ninguém. Te adoro em tudo. Quero mais que tudo. Te amar sem limites. Viver uma grande história. Quero dizer pra sempre que eu te mereço, que eu me pareço com o seu estilo. E existe um forte pressentimento dizendo que eu sem você é como você sem mim. Só sei dançar com você e isso é o que o amor faz. Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar. Em cada despedida eu vou te amar. Desesperadamente eu sei que vou te amar. Nunca se esqueça, nem um segundo, que eu tenho o amor maior do mundo. (olha para outra pessoa) Coisa mais linda é você, assim, juntinho você. Eu juro, eu não sei porque você é mais bonita que a flor. Mel, tua boca tem o mel e melhor sabor não há. Besame, besame mucho, como si fuera esta la noche la ultima vez. Você sabe como me fazer feliz...carne e unha, alma gêmea, as metades da laranja. Só você que me ilumina, meu pequeno talismã! Nosso amor não tem segredos, sabe tudo de nós dois e joga fora nossos medos. Estou morrendo de vontade de você. (canta Me Deixas Louca, de Elis Regina) Quando caminho pela rua lado a lado com você me deixas louca. E quando escuto o som alegre do teu riso que me dá tanta alegria me deixas louca. Me deixas louca quando mais um dia, pouco a pouco entardecer e chega a hora de ir pro quarto escutar as coisas lindas que começas a dizer me deixas louca. (à parte) Espero que a música que eu canto agora possa expressar o meu súbito amor... eu nem sonhava te amar desse jeito. (volta a cantar) Quando me pedes por favor que nossa lâmpada se apague me deixas louca. Quando transmites o calor de tuas mãos pro meu corpo que te espera me deixas louca. E quando sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas desaparecem as palavras, outros sons enchem o espaço. Você me abraça, a noite passa e me deixas louca. (Volta a fixar alguém na plateia meio sem graça) É que eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano. Eu já nem sei se eu tô misturando. Eu perco o sono, lembrando em cada riso teu, qualquer bandeira. Eu sei que te amo! Chega de mentiras, de negar o meu desejo! Eu te quero mais que tudo, eu preciso do seu beijo, eu entrego a minha vida pra você fazer o que quiser de mim. Só quero ouvir você dizer que sim! É preciso amor pra poder pulsar. É preciso paz pra poder sorrir. É preciso a chuva para florir. Sinto que seguir a vida seja simplesmente conhecer a marcha e ir tocando em frente. Todo mundo ama um dia, todo mundo chora um dia e a gente e no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o do de ser capaz de ser feliz. (dialogando com o coração de pelúcia preso ao peito) Coração, diz pra mim porque é que eu fico sempre desse jeito. Coração não faz assim, você se apaixona e a dor é no meu peito. Pra quê que você foi se entregar se na verdade eu só queria uma aventura? Por que você não para de sonhar? É um desejo e nada mais... (colocando alfinete no coração) Agora agüenta coração, já que inventou essa paixão. Eu te falei que eu tinha medo, amar não é nenhum brinquedo. (recompõe-se, para a plateia) Tenho um coração dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração bem melhor que não tivera... esse coração não aguenta se conter ao ouvir tua voz. Pobre coração, sempre escravo da ternura. Canta coração! Que esta alma necessita de ilusão. Sonha coração, não te enchas de amargura. Me larga, não enche. Você não entende nada e eu não vou te fazer entender. Me encara de frente. É que você nunca quis ver. Me larga, perua! Me deixa, piranha! Me deixa viver. Eu vou viver dez, eu vou viver cem, eu vou viver mil, eu vou viver sem você. Pra rua! Se manda! (canta a abertura de Brigas, de Altemar Dutra) Veja só, que tolice nós dois, brigamos tanto assim... (recompõe-se, para uma pessoa da plateia) Eu só quero que você saiba que estou pensando em você. Tô com sintomas de saudade. Eu te quero tanto bem, aonde for não quero dor. Eu tomo conta de você, mas te quero livre também, como o tempo vai e o vento vem. Eu vivi uma vida que foi cheia. Eu fiz o que tinha que fazer. Eu encarei tudo e continuei de pé e fiz do meu jeito. Eu amei, eu ri, eu chorei. Tive minhas falhas, minha parte de derrotas. E agora como as lágrimas descem, eu acho tudo tão divertido. O importante é que emoções eu vivi. Eu espero que você não se importe que eu tenha colocado em palavras como a vida é maravilhosa enquanto você está no mundo. Só louco! Amar como eu amei.

Parte II – Amor ferido

Só eu sei os desertos que atravessei. Só eu sei. Só eu sei. Sabe lá. O que é morrer de sede em frente ao mar. Nada além. Nada além de uma ilusão. Se o amor só nos causa sofrimento e dor, é melhor (bem melhor) a ilusão do amor. Eu me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos. No teu peito, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama. Sem carinho. Sem coberta. No tapete atrás da porta reclamei baixinho. Dei pra maldizer o nosso lar. Pra sujar teu nome, te humilhar. E me vingar a qualquer preço. Te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua. Que é pra ver se você volta. Que é pra ver se você vem. Que é pra ver se você olha pra mim. Meus olhos lacrimejam teu corpo exposto à mentira do calor da ira. No afã de um desejo que não contraíra. No amor, a tortura está por um triz, mas a gente atura e até se mostra mais feliz. Também não dava mais para tentar lhe convencer a não partir... E agora, tudo bem, você partiu para ver outras paisagens. E o meu coração embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estação. O coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços. Como é que uma coisa assim machuca tanto? Toma conta de todo o meu ser... é uma saudade imensa que partiu meu coração. É a dor mais funda que a pessoa pode ter. Meu Deus, não! Eu não posso enfrentar essa dor que se chama amor. Vai minha tristeza e diz à ela que sem ela não pode ser. Diz-lhe numa prece que ela regresse porque eu não posso mais sofrer. Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza. E a melancolia não sai de mim. Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca. Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços apertado assim, colado assim, calado assim. Abraços e beijinhos sem ter fim. Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor. Eu na sua vida já fui uma flor, hoje sou espinho em seu amor. Tive sim outro grande amor antes do teu, tive sim. Mas comparar com o teu amor seria o fim. Eu vou calar, pois não pretendo amor te magoar. Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim. Que nada nesse mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe que a distância não existe. Que todo grande amor só é bem grande se for triste. Assim como viver sem ter amor não é viver, não há você sem mim, eu não existo sem você. (pausa) O que me importa seu carinho agora se é muito tarde para amar você? O que me importa ver você sofrer assim se quando eu lhe quis, você nem mesmo soube dar amor!... O que me importa ver você chorando se tantas vezes eu chorei também? O que me importa essa tristeza em seu olhar se o meu olhar tem mais tristezas pra chorar que o seu? Não vou negar que sofri demais quando você me deu um fora, mas o tempo passa, o mundo é uma bola. Eu entrei na academia, eu malhei, malhei! Dei a volta por cima e hoje eu mostrei meu novo amor. Pensou que eu ia chorar por você? Que eu iria morrer de amor? Que eu ia pedir pra voltar?

Parte III – Amor superado

Ah! Se eu tivesse quem me quisesse, esse alguém me diria: “desiste, essa busca é inútil!” – Eu não desistiria... Você disse que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim. Quer saber? Deixa vir do coração. Soltar essa louca, arder de paixão. Não há como doer pra decidir. Só dizer sim ou não, mas você adora um se... É... será melhor não procurar um novo amor até saber se o coração já se refez. É... será melhor viver em paz. Eu amei estando só, portanto a solidão não é demais. Se algum dia eu encontrar um novo amor, hei de ter amor pra dar. Amor e paz. (suspira numa pequena pausa) Quando eu me apaixonar será para sempre. Quando eu der meu coração, será completamente. (pausa) Todo mundo de repente ficou lindo, ficou lindo de morrer. Eu hoje estou me rindo, nem eu mesma sei de quê. Se você quiser ser minha...? (suspira) Ai! Romântico é uma espécie em extinção.

(Depoimento final de Vivi)

Olha a plateia como no início, leve.

(tira o coração de pelúcia do peito e entrega a uma pessoa da plateia)

(entra música final: Acabou-se assim, de Zé Manoel)

4.4.11

Quem tem um sonho não dança

Hoje, Cazuza completaria 53 anos, se estivesse fazendo parte do nosso show. Deixando de lado a metáfora, gostaria de pedir aos que visitam o Cleytudo – como forma de homenagear esse grande artista – que ouvissem suas músicas hoje. E se puder, divide comigo as letras de sua preferência.

1.4.11

Não brinca hoje, tá?

Primeiro torpedo no celular:

6h

Bom dia. Hoje eu me dei conta que não gosto mesmo de você. Acho melhor cada um ir para o seu lado, seguir o rumo da vida. Desculpa. Eu não quero te iludir, você é uma pessoa bacana e merece ser feliz. Não ao meu lado. Adeus. Daniel.

Segundo torpedo:

6h01

1º de abril. EU TE AMOOOOOOOO! =D Daniel.

Mas o segundo torpedo demorou pra chegar em seu celular e Rayanne havia se jogado na linha do trem das seis e cinco.

29.3.11

Em cena: meu texto infanto-juvenil.

O Menino da gaiola conta a jornada de um garoto de 9 anos chamado Vito. Para onde ele vai carrega uma gaiola e papéis para anotar os sonhos das pessoas. Lê os pedidos, um a um, depois põe a gaiola na janela e abre a portinhola para os sonhos voarem como pássaros. Vito também quer realizar um grande sonho.

Texto: O Menino da Gaiola Autor: Cleyton Cabral Direção: Luiz Felipe Botelho e o Grupo. Atores: Andreza Nóbrega, Eduardo Rios, Marcella Malheiros, Milena Marques e Thomás Aquino. Contrarregra: Beatriz Lacerda. Produção: Grupo Teatral Quadro de Cena.


Confira aqui um trecho da linda música que o grupo criou para este trabalho.


Serviço:

Leia-se: terça!

Dia 29/03 (terça)

Espaço MUDA (Rua do Lima, ao lado da TV Jornal)

Ingresso: contribuição espontânea.

16.3.11

Despedida

DEIR – Vou. Juro que volto logo.
DEVIR – Vem. Não sei se vai ser fácil não.
DEIR – É rápido. É só fechar os olhos e pronto, já voltei.
DEVIR – Quando voltar traz areinha de praia para mim.
DEIR – Claro! De todas as cores.
DEVIR – Pôxa! Como falarei contigo se lá o celular fica sem sinal?
DEIR – Eu ponho uma concha na orelha e você fala e eu te ouvirei.
DEVIR – Você me acaba com essas poesias.
DEIR – Meu voo. Vem, me dá um abraço.
DEVIR – Voa.
DEIR – Vou.
DEVIR – Vai.
DEIR – Vou.
DEVIR – Volta.

15.3.11

Crianças

- Você é bonita.

- Você é bonito.

- Eu gosto de brincar com você na árvore.

- Eu gosto de você.

- Eu roubei um beijo seu.

- Você é ladrão.

- Eu sou ladrão?

- Beijos.

- Ah.

- Você é bonito.

- Você é bonita.

- Eu gosto desses sinais.

- Que sinais?

- Esses do seu rosto.

- Quer pra você?

- Você vai tirá-los?

- Você quer?

- Se você tirar vai doer.

- Ah é.

- Posso lhe abraçar?

- Pode.

- Posso encostar meu rosto no seu?

- Você pode tudo.

- Tudo o quê, por exemplo?

- Ficar com meus sinais.

- Mas se você tirar vai doer.

- Eu estou apaixonado por você.

- Como assim?

- Assim.

- Assim, como?

- Assim, assim.

- Assim de namorar?

- Assim de casar.

- Mas a gente ainda é criança.

- A gente pode casar de mentirinha.

- E eu faço comidinha de mentirinha pra gente?

- Isso, e a gente tem um filho de mentirinha.

- E a gente mora de mentirinha na casa da árvore.

- Eu te amo.

- Assim tão rápido?

- Meu coração quis dizer isso, desculpa.

- Sem problemas.

- Hãn?

- Eu disse sem problemas.

- Você não gostou de saber?

- Não é isso.

- É o quê então?

- Nada.

28.2.11

Sobre fantasias

No Carnaval vale tudo. E no quesito fantasia é que tudo é possível: Mulher Maravilha beijando Esqueleto, Batman pegando na bundinha de Robin, Chiquinha cometendo incesto com Seo Madruga. Vale até fantasia que vira fantasia sexual: homens exibindo seus corpos bombados na roupa do jiu-jitsu, o jaleco do 1º ano de medicina aberto, a roupa colada do grupo de ciclistas.

22.2.11

Hoje quero falar de amor

Hoje eu quero falar de amor teve como ponto de partida os contos do blog do ator e publicitário Cleyton Cabral (cleytudo.blogspot.com.br). São textos sumários falando dos encontros e desencontros do coração, a descoberta do amor, as ilusões e desilusões amorosas. Os textos falam do cotidiano, mas de uma forma peculiar. Os detalhes são valorizados, as mínimas ações são a tônica. Cada personagem criada é pulsante e viva. São tipos que encontramos em cada esquina. Os dramas e alegrias de pessoas comuns nos aproximam dos textos. As imagens criadas são muito fortes e simples, talvez sejam tão fortes por retratarem a realidade que absorvemos, mas não digerimos. Cleyton nos faz olhar a vida com mais atenção, mostrando a importância de olharmos a vida com olhos bem abertos. Um único tema é tratado de diversas formas. É essa a ideia de Hoje eu quero falar de amor: mostrar o amor em seus diversos ângulos e situações, com a leveza e a força que o autor imprime em cada texto.

Um aposentado que convida a atendente do setor de cobranças de um banco para jantar, uma recepcionista que se apaixona e se casa com um mestre de obras do prédio da frente do seu trabalho, um homem que tem tesão pela voz da secretária eletrônica da namorada, um paciente que quer namorar uma enfermeira, um voyeur que relata as possíveis relações sexuais que vê em público, uma mulher que mata o marido para sair na capa do jornal, uma garota que se masturba pensando em seu autor predileto, uma moradora da favela que quer casar com Papai Noel e um adolescente que navega na internet à procura de sexo são algumas das personagens pontuadas por Cleyton.

Rafael Almeida.

PROJETO Leia-se Terça!

Leitura dramatizada: Hoje quero falar de amor.

DIA 22/02, às 20h, no Espaço MUDA | Contribuição espontânea

DIREÇÃO: Rafael Almeida.

ELENCO: Evandro Lira, Fernanda Mélo, Luana Lira, Luciana Pontual e Thiago França.

3.2.11

Te amo

Te amo de manhã. Te amo com as suas costas recebendo os primeiros raios de sol pela janela, te amo com o seu corpo marcado pelo lençol, te amo com seu pijama furado, te amo com a sua cara amassada, te amo com a sua boca suja de iogurte, te amo com os seus pés ainda quentes sobre os meus embaixo da mesa, te amo com sua xícara fazendo borra de café, te amo com você pedindo para eu deixar meu carro na garagem porque você vai me levar ao trabalho, te amo com sua mão no meu queixo desejando um bom dia de trabalho. Te amo à tarde. Te amo com sua confusão para trocar os talheres das mãos para cortar a carne, te amo com os gominhos do suco de laranja em seus dentes, te amo com a calda do pudim sujando sua roupa, te amo com os seus torpedos desesperados de ‘onde você está, pq não me atende?’ no fim da tarde, te amo no congestionamento, te amo com a sua mão na minha perna acariciante. Te amo à noite. Te amo com seu sanduíche de queijo do reino, te amo com você me trocando pela reprise do filme na tevê, te amo quando você tira as meias para se esquentar enroscando suas pernas nas minhas. Te amo de madrugada. Te amo com seus roncos, te amo sonhando e acordado.

12.1.11

Teoria da felicidade na prática

Você se aproxima e pergunta o motivo de minha felicidade. Por que meus olhos brilham como duas bolas de sinuca virgens? Você quer saber por que meu sorriso se expande, as sobrancelhas se erguem, as narinas se dilatam e as maçãs do rosto apertam meus olhos. Está namorando, está namorando, você falou antes de eu responder. Por que sempre aliam felicidade à dependência do outro? Felicidade para você é apenas a noção de ser par? É tão mais, é tão ímpar. Pode ser tão solitário. Não confunda: ser feliz não quer companhia, ainda que o encontro seja de você consigo mesmo. Olha, talvez você não me entenda, mas felicidade não é só ter duas pernas e poder andar. É mais, é poder viajar mesmo em cima de uma cadeira de rodas. O coração não necessita de moletas. Estou complicando, não é? E se eu disser que felicidade é a soma da borra de café na mesa, o cheiro das páginas amareladas do livro, pão e mel? É pouco para você? E presenciar duas borboletas copulando, uma criança empinando pipa e uma mulher contando estrelas? Compreende que felicidade é mais que a união de dois corpos ocupando um mesmo espaço?

7.1.11

Cinquenta e oito

... cinquenta e nove, sessenta, sessenta e um, essa mania de contar, sessenta e dois, sessenta e três, eram as lâmpadas quando a noite vestia a cidade de luz, sessenta e quatro, os carros a 100 km/h na avenida sem fim, sessenta e cinco, sessenta e seis, sessenta e sete, as gotas de chuva em fila indiana na grade da janela, sessenta e oito, os rapazes de jeans e camisa branca, sessenta e nove, setenta, o movimento da moça pedir cerveja ao garçom, setenta e um, o tique da outra para derrubar a cinza do cigarro, setenta e dois, contava piada, setenta e três, setenta e quatro, contava lorota, setenta e cinco, contava vantagens, setenta e seis, contava moedas, setenta e sete, contava e não acabava mais, setenta e oito, setenta e nove, oitenta...

4.1.11

Trocando miúdos

Contrafilé. Quem é que está contra quem?

Picanha. Tenho picuinha com ela.

Isso é lavagem de carne suja, mêo.

- Coxão mole é a puta que te pariu! [miúdos vão rolar]

Alho por alho, dente por dente. O tempero do amor é o ciúme.

- Tá pensando que sou carne de terceira?, gritou abanando os braços. Eu sou ponta de agulha, queridinha.

Sua chupa-charque, a outra gritou do lado de lá da rua, você só tem titica de galinha nessa sua cabecinha. Acorde pra Jesus, ele não te ama.

Ultrajada, a mulher traída ficou passada, bem passada [quer dizer, ao ponto]

- Pelo meu homem eu faço das tripas coração, sua galinha.

Tiro na alcatra.

A mulher traída pisou com a ponta do salto na carne moída do seu cérebro. [catraia, quem mandou roubar o marido dos outros?]