19.4.10

Nhá Nhá

Era um sábado ensolarado e ela foi ao mercado dentro de um vestido florido, em cima de sandálias baixas, com os cabelos despenteados e uma sacola de feira nas mãos. Se ela não tivesse nome, poderia ser chamada de Alegria. Uma alegria que é diferente de gargalhar, uma alegria que é diferente de ter posse de algo desejoso ou caro demais, uma alegria que não é ganhar na loteria. Você me entende, caro leitor, ou quer que eu faça mais alguma comparação? Tudo bem: uma alegria como a primeira barba, o primeiro encontro, o primeiro banho de mar. Uma alegria que está nas bolotas dos olhos, nas maçãs do rosto, uma alegria assim. Maria José de Mendonça encantava quando passava, e olhe que ela não é a garota de Ipanema não. Ela é da cidade de Matinhos e era conhecida como Nhá Nhá. Entrando em um corredor e saindo noutro, Nhá Nhá escolhia uns versos maduros, caídos do pé, fresquinhos. Apalpava cada rima como boa plantadeira de poesia. Cheirava cada palavra rosa romã com mãos irrigadas de sentimento. Jogava umas palavras que caíram do pé antes do tempo, abortadas na estrofe estéril e colocava na sacola aquelas que tinham um suco substancial, as que dariam um belo ponche-prosa. E saiu do mercado distribuindo poesia por onde passava.

mim

Mim Acauã está afastado da tribo.
Mim não usa penacho nem cocar, mim já cresceu com MP4,
mim já vê a imagem através de um clique da câmera digital.
Mim não usa colares e brincos, mim já possui piercing de aço cirúrgico e tatuagem.
Mim não dança para chuva cair, mim ver o novo clipe da Lady Gaga no youtube.
Mim não bebe chicha, mim provou coca-cola e gostou.
Feliz dia do Índio.