30.12.10

Meu 2010.

Em 2010, eu sonhei muito. Isso inclui alguns pesadelos e realizações. Mais realizações que pesadelos, na verdade. Eu costumo planejar objetivos a cada novo ano e minha meta é ser feliz. Sempre. Mesmo quando as coisas saem da linha e se desgovernam. Eu vejo o abismo com outros olhos, razão de minha miopia: 4.75 no olho direito e 5.75 no esquerdo. Cego, você deve estar pensando. Nem tanto. Sem exageros. Ok, não sou Deus, mas nasci com a sensibilidade de enxergar de outras maneiras. E isso não é coisa do outro mundo. Também nem sei se se ensina a ver sem os olhos. Talvez se aprenda vivendo, sendo. Em 2010, eu sorri muito e chorei pouco, mas fiquei com os olhos marejados diversas vezes. Eu dancei sem música, mas também não mexi um ombro numa boate. Eu me perdi os quatro dias de carnaval, mas estava fácil de me achar de Wally (eu juro que tenho mais de uma fantasia e que sempre estava cheiroso, apesar de na maioria das vezes eu estar bêbado). Beijei na boca e não quis saber o nome, beijei na boca e quis casar, beijei e não peguei sapinho. Em 2010, completei ¼ de século e ganhei lindos presentes, mas os melhores foram os amigos. Em 2010, eu entrei no MBA em Marketing e Propaganda e deixei de badalar nas noites de sexta-feira (as aulas são aos sábados das 8h às 16h). Cochilei em algumas aulas, vencido pelo cansaço da semana e algumas outras pela aula desinteressante mesmo. Em 2010, minha segunda casa era/é a Agência onde atuo como redator. Lá eu quebrei a cabeça tantas vezes, criei milhares de títulos, me angustiei (faz parte do processo criativo e ideias não caem do céu) porque às vezes não saía nada que prestasse, mas outras e muitas vezes saíram coisas bacanas e é tão bom ver seus filhinhos nos jornais, na televisão, no rádio, na traseira do ônibus. E mais: ver as pessoas comentando, os clientes felizes (mesmo que minha mãe ainda não entenda o que danado faz um publicitário). Ah, na hora do almoço eu malhei na academia ao lado da Agência (mesmo indo dois ou três dias por semana e às vezes nenhuma vez). Em 2010, eu participei do Grupo de Estudos de Dramaturgia da Fundação Joaquim Nabuco e foram muito enriquecedores os encontros e as trocas com os participantes. Só aumentou essa minha paixão pelas histórias. E foi de lá que nasceu Vito, personagem do meu texto teatral O menino da gaiola, do qual fui convidado pelo SESC Pernambuco para participar do Projeto Dramaturgia: Leituras em cena, uma parceria com Núcleo de Teatro para a Infância e a Juventude, que será realizado entre os dias 5 e 11 de janeiro do ano que vem no SESC Santo Amaro (espero todos lá, hein?). Em 2010, eu tive meu conto Percurso publicado na seção Inéditos do Suplemento Pernambuco (edição de setembro) e fiquei muito feliz pelo espaço (mais uma consequência da minha paixão pelas palavras). Em 2010, os contos do meu blog inspiraram o espetáculo Para caber no teu sorriso (que falava do amor, consequência mais uma vez do caso de amor que tenho com as palavras) e experimentei ser platéia, já tão acostumado a estar no palco. É tão bom ver suas palavras tomarem vida na voz e no corpo dos atores. Em 2010, não deixei de ser ator (mesmo fazendo coisas pontuais, adoro estar em cena, me sinto pleno e à vontade). Joguei com outros atores na edição de agosto do Curta Teatro, Projeto tão bacana do Espaço MUDA, que une atores de teatro a diretores de cinema para, juntos, exercitarem o fazer teatral. Também participei da leitura dramatizada do texto Quando Aquiles sangrou ou Suas mãos onde estão?, interpretando Aquiles numa história de amor. Mas estava em meus objetivos desse ano trabalhar com um diretor da cidade que admiro muito e que ele também me falou uma vez: “Quero dirigir você.” Espero que em breve isso aconteça (fikadika). Em 2010, comprei dezenas de livros e li muitos deles, outros estão pela metade. Continuo minha pesquisa acerca da obra e da vida de Hilda Hilst. Das assinaturas de revistas, só venho lendo a Bravo!, as revistas Piauí estão todas lacradas (paciência!). Ana Cristina Cesar vem me consumindo a cada dia. E Caio, e Lygia e tantos outros. Em 2010, fui a São Paulo e perambulei pelas ruas sozinho, tomei chope com uns amigos e café com outros (o Zeca foi umas das melhores conquistas da viagem). Em 2010, fui padrinho de casamento e tremi na entrada do altar. Em 2010, comprei muitas roupas e doei outras, comprei dezenas de Allstar e não me arrependo. Em 2010, fui a muitas festas, bares e Teatros. Em 2010, tomei muitas cervejas (a barriga cresceu um pouco, mas juro que ficou um charme). Em 2010, perdi amigos e ganhei outros (a compensação foi bemmmmm melhor). Em 2010, eu escrevi muito contos aqui no Cleytudo e agradeço por cada visita, os que comentam, os que só leem, os anônimos, todos. E que venha 2011 porque 2010 já está acabando. Abraços e beijos. Um ou outro ou os dois.
Cleyton Cabral.
@cleytoncabral

23.12.10

Acredite em mim

Se eu disser que acredito em Papai Noel você acredita em mim? Ok, eu não acredito. E se eu abrir meu coração para você se proteger da chuva e da ventania, você acredita? Acredite. E se eu abrir meus longos braços para lhe abraçar, você acredita? Ainda está com os braços suspensos?! Vem, acredite. Quero que você acredite que pode contar comigo sempre que precisar. Acredite que fico mais feliz em poder fazer você um pouco mais feliz. Então, Feliz Natal e que nesse novo ano que se aproxima a gente fique mais próximo, ok? Acredite.

Cleyton Cabral.
Uma singela homenagem a quem vem aqui, gasta um tempinho da vida lendo-me.


22.12.10

Carta aos atores

Bárbara, Fernanda, Paula, Lu, Roberta, Sofia, Pedro, Rodrigo, Rafaell e Yuri, para caber no sorriso de cada um de vocês, voltei a ser criança: brincar descalço na rua, tomar banho de chuva, tirar meleca do nariz, fazer bilhetes de eu te amo, tomar picolé de morango mesmo resfriado, roubar dinheiro da bolsa da mãe para jogar playtime, ver revista de mulher pelada escondido e experimentar os prazeres do corpo, deixar de tomar banho antes de ir para o colégio por causa do frio, brincar de pinga-fogo com plástico e queimar os dedos e tantas tantas outras coisas. Na verdade, eu nunca deixei de ser criança. "Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". É tão bom viajar sem sair do lugar, assim com um lápis e um papel em branco, com o teclado e a tela do computador ou com o que a imaginação permitir. Hoje é dia de brincar. Se permitam a ser crianças e brinquem, brinquem, brinquem... sem culpas. Joguem. Teatro é jogo, mas ninguém precisa sair vencedor. Cada um de vocês pode ser herói, príncipe, cavalo, borboleta, avião, cachorro, médico, árvore... o que vocês quiserem. Bárbara, Fernanda, Paula, Lu, Roberta, Sofia, Pedro, Rodrigo, Rafaell e Yuri, no Teatro vocês podem tudo. Desejo uma doce apresentação.

Um beijo do meu tamanho em todos e em cada um de vocês.

Cleyton Cabral.

Recife, 14 de dezembro de 2010.

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Carta aos atores do curso de Iniciação Teatral do SESC, na estréia de Para caber no teu sorriso, espetáculo construído a partir de contos desse blog. A direção é de Rodrigo Cunha.

P.S.: vale registrar que foi lindo e que fiquei muito emocionado ao ver meus contos ganharem vida na boca e no corpo desses novos talentos. Parabéns.

20.12.10

Os cegos é que são felizes.

Parou os olhos na última frase. Paralisado. Era possível ouvir os ponteiros do relógio e os galopes do coração. Lembra que eu tinha uma família construída? Esposa e filhos. Você chegou, invadindo minha casa, meu coração. Eu não queria, mas você foi se aproximando cada vez mais, transformando ausência em necessidade. Sua presença era como uma bomba de ar na qual eu precisava para respirar. Era uma questão de vida ou morte. E se é para manter viva essa chama que você chama de amor, vale a pena eu matar um passado e viver o agora. Carpe diem, você me dizia, carpe diem. Deixei casa, esposa e filhos. Por você, por este amor que você jurava. Isso nunca tinha me acontecido antes. Por que você fez sinal? Por que você me olhou assim? Por que você surgiu na minha frente, como um monstro do Pântano? Eu poderia ser cego. Nunca ter parado meus olhos nos seus. Os cegos é que são felizes. Eles não dispõem desse embaraço que é o olhar. O olho é armadilha do coração. Parou os olhos na última frase e ficou paralisado. Como assim “eu não te amo mais”?

15.12.10

Receita para expurgar

1- Dê play na música que você mais ouviu nos últimos dias, no último volume.
2- Pegue todas as fotos de vocês dois e, de quebra, todas as cartas, cartões de namoro, aniversários, Natal e Ano Novo. (não esqueça os tickets dos cinemas e teatros)
3- Ponha todos os ingredientes do item 2 no liquidificador e acione o nível 6 + processador.
4- Se ficar grosso, adicione um pouco de hidróxido de sódio (NaOH), também conhecido como soda cáustica.
5- Espalhe a pasta na soleira da porta dele(a). Ele(a) poderá não entender nada daquilo. [Arte é isso, cada um faz a sua interpretação.]

13.12.10

Hipnose

Tua mania de colocar os botões da minha camisa de casa em casa e ajeitar minha gola. A maneira como tu me abraças, colocando teus pés descalços sobre os meus. Teus dedos serpenteando os pelos dos meus braços. Tua língua lavando meu queixo de sorvete de creme. Teu corpo-vulcão no inverno. Teus olhinhos músicas de ninar. Tua pele, lençol. Contigo eu só tenho sonhos bons e eu não quero mais acordar. Tu sabes me hipnotizar.

10.12.10

Entre-atos

Ensaios

O que me falas não precisa de repetição, embora você faça sempre as mesmas coisas. (não sei explicar, só sei sentir)

Estreia


Nosso amor começou sem acento.

Quarta parede

Enxergando você na platéia agora. E agora, sou personagem ou ator? O tônus das minhas mãos, a força da minha voz, o olhar compenetrado. Estou interpretando ou sendo-me? Todos os olhos em mim e as palavras saindo da minha boca em sua direção.

Deixas

Fiz da pia jarro, cântaro: abri a torneira e pus as rosas que você enviou para o camarim com um cartãozinho e duas palavras (não era “eu te amo.”)

Aplausos

O beijo, o abraço. Os seus, todos.

6.12.10

Na rede

- Tirando a turma do futebol, tu és o cara que eu mais converso.

- Vai ver que é porque só o pessoal do futebol e eu que te dá bola.

2.12.10

Kickboxing

Primeira aula do sádico fora da cama.

Peregrino

Comprei passagem só de ida: um trem para as estrelas. Embarque no portão da frente, lado esquerdo, entre a costela e o coração. Não fiz malas. Não levarei nada mais que a vontade de conhecer o que há do lado de dentro. Santiago, percurso que afluem aos meus caminhos.