27.10.10

santinho

Na tua boca de cimento, palavra pedra, tropecei. Desci tua garganta-esgoto, discurso de merda, palavra suja qual chorume. É ano político, meu bem, mas não tens meu voto. Bem sabes, eu não acredito em ti. Podes tirar a gravata e o paletó (a vida não é um estúdio). O voto é uma escolha e hoje eu escolhi esquecer você.

26.10.10

Sincronizados.

Amanhecendo olhos negros desérticos desaguando em meus olhos-cais. E a insistência em dizer: eu não sei nadar. Amar é deixar-se afogar. Boiar, talvez. Aprende-se a amar amando e a nadar nadando dando certo ou não. É preciso sair do raso. É preciso mergulhar de cabeça. Nado livre, amor livre. Fazer da vida trampolim, amor em suspensão.

21.10.10

Tire o cavalinho do sol.

Sinceramente, eu não vejo o cavalo como um meio de transporte, nunca vi. Bicho não nasceu pra levar chicotadas. Sem falar que cavalo não tem rodinhas nem gasolina. Imagina: comprei um cavalo com 200 cavalos, design arrojado, o bicho não corre, o bicho voa. Cavalo é um carro de quatro pernas que sente dor.

19.10.10

Unidos por um big big

Ele guardava a goma de mascar embaixo da carteira para durar mais. Ela deixou um bilhete colado na goma: sou doce e não perco o sabor. Casaram de mentirinha na hora do recreio. Dividiam o waffer de abacaxi e o suco de melancia. O primeiro beijo foi na sala da Diretoria, quando ficaram de castigo por riscarem eu te amo no quadro-negro (uma das primeiras aulas de amor). Casaram de verdade e vivem grudados feito chiclete.

18.10.10

microconto de sucesso

Lidava muito bem com a carreira.
Mas não era a de artista.
Terminou morrendo e deixando muitos fãs.

15.10.10

microconto carente

- Vou na McDonald's, quer alguma coisa?
- Traz o Ronald.

Quero falar da violência.

Você dizer que me ama e no outro dia mudar de calçada é violência. Suas mãos puxando meus braços como se eu fosse um objeto é violência. Violência é você jogar seu fultebozinho e me deixar com as crianças em pleno domingo de sol. Você não me deixar falar é violência. Você GRITAR como se eu estivesse surda é violência. Violência é você querer transar comigo apenas porque casamos e moramos juntos. Você trocar meu nome na cama é violência. Você usar de suas posses é violência. Violência é você dizer que está tudo bem quando na verdade não está. Você não jantar na mesa comigo é violência. Suas cuecas como enfeites de árvore de natal pela casa é violência. Violência é você achar que ter uma mulher é só para fornicação. Você me colocar contra as crianças é violência. Suas mãos me deixando marcas no rosto e no coração é violência. Violência é viver ao seu lado.

8.10.10

O privilégio do café da manhã na cama

Tuas pernas torradas, teus lábios gelatinas (o suco da tua boca, os beijos-queijos-todos), as maçãs rosadas do teu rosto cremoso. E o sol como brinde penetrando as persianas?, vontade de dizer. Calo-me e devoro-te. Degusto cada parte tua como numa oração. Começo com os espaços entre os teus dedos dos pés, sem frieiras ou calafrio. Sou bom devoto, tenho verdadeira adoração pelos teus pés. Preencho com beijos e lambidas tuas falanges, por mais que tuas cúmplices meias tenham ciúmes (elas te aquecem do frio dia e noite, eu te aqueço em qualquer estação). Estou satisfeito.