31.8.10

nossos corpos no reflexo da tevê

E muito mais interessante que o sexo é olhar sua instabilidade. Toda. É saber que depois do sêmen lançado no ar em direção ao meu tórax semeamos o momento de estarmos um com o outro. Mesmo sabendo que você vai embora. Sem olhar para trás. O que importa o tempo passado se podemos viver o agora nesse fluxo de nossos corpos suados? Cais. Ele acendeu o segundo cigarro olhando o próprio reflexo na tela da tevê desligada. Eu olhava sua nuca, a dobra do braço e aquela mão que sabia o início e o fim de mim. A mesma mão que um dia dirá adeus. E muito mais interessante que pensar em sua viagem de não mais voltar é sentir seu beijo de pêssego em calda. Tudo. Os pentelhos. Todos. Os abraços que partirão para sempre na ilha sem fim.

24.8.10

Sinto um deserto imenso aqui dentro

Você pediu e eu te dei. Você foi chegando aos poucos, tapando os combogós, me livrando do frio dos dias. E eu era tão inexperiente, não sabia dizer sim nem não. Segurei em sua mão e não mais quis soltar. Com ela fiz balanço, gangorra, parque de diversões. Meu sorriso largo. Tuas mãos de cachecol. Só você sabia acalmar os ventos fortes. Em qualquer estação, só você. Eu fui querendo permanecer, ficar. Ei, devolve meu coração. Não quero mais ser a fonte esquecida da praça central sem jorrar água.

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20.8.10

microconto para todas as idades

ADULTO – Pare de comer o camarão! É tira-gosto! É pra beber!
CRIANÇA – Eu sou bebê.
ADULTO – (...)

18.8.10

microconto devotee II

Seus braços chegavam até depois dos cotovelos. Já seus abraços, percorriam o infinito pleno do meu ser. Eu gosto dos seus abraços. Gosto da suave música do teu corpo no meu. Dentro. Aqui dentro do meu coração. Nem parece que você é diferente. Você é tão igual. Você é tão minha. Você é tão. Você.
___
*Devotee é uma categoria de pessoas que têm fetiche pela deficiência. O que lhes atrai é a deformidade, é a especificidade de cada deficiência.
Esse é o segundo microconto que escrevo para alimentar a pesquisa "O Corpo Pertubador", do bailarino Edu O.

17.8.10

microconto do desacordo ortográfico

O hífen está puto
porque o supersônico,
a minissaia e o ultrassom
perderam o hífen e ele
continua com sua
pneumonia aguda.

16.8.10

Eu vou, tu vinho.

Abro a porta. Tu me esperas na cama com um vinho afogado no balde de gelo. Duas taças. Dois corpos quentes. Nossos desejos um pelo outro. Teu sorriso largo e eu me perdendo em teus braços. Nossos pés desenhando a beleza da vida no ar. A falta de ar. Tu balão de oxigênio. Teus batimentos. Eu cavalgando na estrada do teu colchão ortopédico. Suspensa. Suor. Sede. Saliva. Tu me bebes com um bom vinho branco. Gozo e espuma.

13.8.10

1:05

Apertou o play na cannonball do Damien Rice. There's still a little bit of your taste in my mouth. Pêssego, amora ou caqui? There's still a little piece of your face I haven't kissed. Pera, uva, maçã ou salada mista? Deu stop e foi ver tevê. Quem te viu, quem te vê.

4.8.10

noite

A cidade dorme enquanto nossos corpos em convulsão procuram o fim do começo do fim.







3.8.10

sala de estar com você

O sofá cheio de farelos de bolacha, enquanto assistíamos a um filme qualquer, e o seu beijo de suco de maçã. As persianas da janela aplaudindo nosso amor com o vento que adentra o apartamento e os raios de sol fotografando nossos pequenos desejos: contemplar nossos rostos e sexos sem nexo, abraçar como em uma despedida sem lágrimas, passear as mãos em territórios da alma.

1.8.10

dos voos

- Já escolheu o desenho?
- Sim, um par de asas.
- Um par de asas?
- Sim.
- Você já tem asas invisíveis, não precisa mais.
Ilustração de Luis Fabiano Teixeira sobre pôster do MoMA.