14.4.10

percurso

Ele disse que aquilo não era traição, que dividir o mesmo vagão do metrô com a ex não significava traição, e era coisa do acaso. É claro que a culpa é do acaso. É sempre do acaso, do destino, sempre a culpa é de quem não tem garganta, de quem não sente frio, não pega metrô. Que eu saiba acasos ou destinos não tem pernas nem coração, nem olhos para ver seu namorado com a ex dentro de uma estrutura de aço que desliza por trilhos. Por segundos, passara um filme na cabeça de Daiane, abre parênteses, Eu, Davi, recebo-te por minha esposa, Daiane, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da minha vida, fecha parênteses. E ainda dizia: quero passar os dias de velhinho ao teu lado e usar bengala. Tantas demonstrações de afetos e promessas para descarrilar assim nesse desentendimento. - Você não tirava os olhos dela, eu tenho certeza, tenho certeza que você marcou jantar, disse que sentia saudades, que ela estava linda. - Amor, Não tem razão para tantos ciúmes, eu só estava no mesmo vagão que ela, em um espaço que é público, deixe de nóias, ele disse dando o nó na gravata e olhando para Daiane pelo espelho. Ela o abraçou por trás encostando a cabeça em suas costas. - Você não me ama mais, ela disse deixando suas lágrimas molhar a camisa branca de botão dele. Ele nunca a traiu. Nunca. Só encontrava com a ex porque ela era segura, otimista, bem-humorada e possuía personalidade forte. Depois de alguns dias, Daiane voltou para a terapia. Davi não voltou mais para casa.

10 comentários:

Samantha disse...

KARALHOOO... Ameiiiiii. Tu bota quente hem fiu.

Juliana disse...

Adorei..........

Rafael Almeida disse...

muito bom!

ZECA COELHO disse...

Será que ainda existe quem sonhe em "envelhecer juntos" num mundo da velocidade do download mais e mais e mais rápido? Há quem diga que sim, que quer, mas age ao contrário, já que a oferta está grande; há quem diga que isso é babaquice e ponto final. Eu já disse, aqui, e repito: quero um amor que dure o tempo de um download num processador PC 286... E, por favor, suposto amor, não me troque como se eu fosse um processador. Por fim, a sombra da dúvida é pior do que o fato/ato concreto e sabido. Cleyton, parabéns e obrigado!!!

ZECA COELHO disse...

Agora, sem opiniões pessoais: texto fantástico. Maravilhosa a analogia dos trilhos e vagões do metrô com a linha férrea e nada ferrenha na linha do amor.

Mikaele Tavares disse...

kkkkk...Que história!!!!

Lai Paiva disse...

Puuuuts, adorei. Muito bom mesmo, querido. Bjs

[ rod ] ® disse...

Não diz uma frase, não sei de quem ou se é de sabedoria popular, que ex boa é ex morta? rs

Eu tenho dúvidas...

Ex rende boas doses de poesia!

Abs meu caro.

laís sampaio disse...

pooorra!

Elton Menezes Severo disse...

Muito bom, principalmente o final.
O título deveria ter sido relacionado a metrô, por conta das idas e vindas. Algo do tipo: TRILHO, ao invés de percurso. Mas gostei de toda forma.