18.1.10

presentinho

Ele entrou segurando o pacote enrolado em papel de presente, acendeu a luz da sala, ligou a tevê e seguiu em direção ao quarto, que parecia o Pólo Norte com o ar condicionado no máximo. Ela já estava de camisola e lia um romance italiano com as pernas apoiadas por uma almofada. Ele disse boa noite, benzinho e beijou-lhe a cabeça tirando os sapatos. Ela respondeu e no momento do beijo comprimiu os olhos e fechou o livro marcando a página com o dedo. Ele estendeu o braço com o pacote. O que é isso?, ela perguntou surpresa. Abra, ele disse, acho que você vai gostar. Ela deixou o livro de lado e abriu o presente com cuidado para não rasgar o papel colorido. Sem muita felicidade ela pergunta, uma bolsa? Ele disse sim com a cabeça, Não gostou?, insistiu. Gostei, ela disse querendo dizer não e guardou o presente no guarda-roupa. Mário tomou um banho e foi ver televisão na sala. Ângela foi ao guarda-roupa novamente conferir o presente. Meu Deus, que bolsa ridícula! Nunca vi objeto mais folclórico, se eu colocar na rua é capaz de pensarem que é um caboclo de lança, uma apresentação de maracatu ou algum despacho. Mário, vamos conversar?, disse invadindo a sala às três da madrugada. Oi, amorzinho, o que foi que aconteceu? Eu só gostaria de saber se esse presente que você trouxe era para mim mesmo, ela perguntou olhando nos olhos dele. Sim, môzinho, claro. Mário, somos casados há vinte anos e você sabe o que gosto, no mínimo. Não gostou do presente, é isso?, ele perguntou ofendido. É piada, né?, ela desafiou. Essa bolsa é um tanto ridícula, não tem nada a ver comigo. Nada, na-di-nha. Você estava com quem quando comprou? Ângela, eu é que não estou entendendo nada. Ah, é filhinho? Com quem você estava na hora de comprar esse carnaval? Foi sugestão da vendedora da loja. Ah, que meigo, que bonitinho, que lindinho você. Nunca me traz um alfinete e quando chega com alguma coisa é assim. Pois, pode devolver à loja. Eu tenho certeza que foi alguma putinha que você tá pegando que sugeriu você aparecer com um presentinho. E nem vou mandar você levar a bolsa para ela, que sei que a sujeita vai é gostar. Boa noite.

3 comentários:

Daniel Cisneiros disse...

Kkkk
Adoro o estado crônico do viver, e como você o transforma em croniconto!
^^

Lai Paiva disse...

Adorei!!! Adoro seus escritos sabia? Beijo. = )

Kyara disse...

nossa, os tempos estão estressados mesmo, ui.