31.1.10

possibilidades medianas

Amor, hoje é o meu dia, você fica com a Clarinha, já que não confia com quem deixá-la. Para Célio era assim: família com criança, como no caso dele, deveria priorizar os cuidados já que hoje não há de confiar nas babás e em ninguém, afinal o mundo está cheio de malucos. Um dia ele se diverte com os amigos, outro dia ela se diverte com as amigas, mas um tem que ficar em casa com a criança. Hoje é sexta e ele quer tomar umas cervejas com os colegas do trabalho. Simone fica em casa com Clarinha. Simone tem ficado em casa desde que a pequena nasceu. Célio deixou claro: trabalhamos no comércio, emprego mediano, e como as mensalidades de hotelzinhos para crianças são caríssimas, é o mesmo que trocar o salário, você fica em casa, eu trabalho okey? Um médico jamais deixaria o emprego para cuidar de um filho, mas devemos admitir que nosso emprego é uma bosta. Simone não ficou com raiva, ela entendeu perfeitamente que Célio se preocupava com a filha, era um bom pai. Célio trabalhava, fazia feira, dava de um tudo em casa, mas mesmo assim, Simone continuava desconfiando que estava sendo traída pelo pai de Clara.

27.1.10

SANTA & PACIÊNCIA VI

SANTA – Amiga, estava louca para falar contigo.
PACIÊNCIA – Conseguiu fazer as posições do Kama Sutra.
SANTA – Não. Não é isso, amiga.
PACIÊNCIA – E o que é então?
SANTA – É uma curiosidade. Assim, passei em frente a uma banca de revista e uma matéria de capa chamou minha atenção: É DOS CARECAS QUE ELAS GOSTAM MAIS. Truques e Segredos para arrasar na cama.
PACIÊNCIA – Isso tudo é o nome da revista?
SANTA – Não, o nome da revista é A ARTE DE TER TESÃO.
PACIÊNCIA – Ah, tá. E qual é a curiosidade?
SANTA – Então amiga, comprei a revista e fiquei encantada com a matéria que falava que os carecas têm ereção prolongada.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E que queria saber se é verdade, afinal o Jairo, seu namorado, é careca.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E ele demora mesmo com o pinto duro?
PACIÊNCIA – Sim, muito.
SANTA – É que o Mauro é assim: eu abaixo a calcinha e ele já fica quase gozando. Tão difícil. Queria outras experiências... e agora estou curiosa para encontrar um careca.
PACIÊNCIA – Sei.
SANTA – Assim, é que queria matar essa curiosidade com você... Olha quem vem por ali, o Jairo. Ele sempre chega a essa hora, não é?
PACIÊNCIA – Acertou. Tchau amiga, depois a gente conversa mais.
PACIÊNCIA – Ah tá, tchau.

(dois beijinhos: Mummmmmm-ráááááá, Mummmmmm-ráááááá)

26.1.10

garimpo

Vou
cavando
cavando
cavando até
encontrar você
sem armaduras e cordão
de isolamento, fazendo buracos
em tua alma, procurando pepitas,
trepidando com minhas mãos, vacilantes.

18.1.10

presentinho

Ele entrou segurando o pacote enrolado em papel de presente, acendeu a luz da sala, ligou a tevê e seguiu em direção ao quarto, que parecia o Pólo Norte com o ar condicionado no máximo. Ela já estava de camisola e lia um romance italiano com as pernas apoiadas por uma almofada. Ele disse boa noite, benzinho e beijou-lhe a cabeça tirando os sapatos. Ela respondeu e no momento do beijo comprimiu os olhos e fechou o livro marcando a página com o dedo. Ele estendeu o braço com o pacote. O que é isso?, ela perguntou surpresa. Abra, ele disse, acho que você vai gostar. Ela deixou o livro de lado e abriu o presente com cuidado para não rasgar o papel colorido. Sem muita felicidade ela pergunta, uma bolsa? Ele disse sim com a cabeça, Não gostou?, insistiu. Gostei, ela disse querendo dizer não e guardou o presente no guarda-roupa. Mário tomou um banho e foi ver televisão na sala. Ângela foi ao guarda-roupa novamente conferir o presente. Meu Deus, que bolsa ridícula! Nunca vi objeto mais folclórico, se eu colocar na rua é capaz de pensarem que é um caboclo de lança, uma apresentação de maracatu ou algum despacho. Mário, vamos conversar?, disse invadindo a sala às três da madrugada. Oi, amorzinho, o que foi que aconteceu? Eu só gostaria de saber se esse presente que você trouxe era para mim mesmo, ela perguntou olhando nos olhos dele. Sim, môzinho, claro. Mário, somos casados há vinte anos e você sabe o que gosto, no mínimo. Não gostou do presente, é isso?, ele perguntou ofendido. É piada, né?, ela desafiou. Essa bolsa é um tanto ridícula, não tem nada a ver comigo. Nada, na-di-nha. Você estava com quem quando comprou? Ângela, eu é que não estou entendendo nada. Ah, é filhinho? Com quem você estava na hora de comprar esse carnaval? Foi sugestão da vendedora da loja. Ah, que meigo, que bonitinho, que lindinho você. Nunca me traz um alfinete e quando chega com alguma coisa é assim. Pois, pode devolver à loja. Eu tenho certeza que foi alguma putinha que você tá pegando que sugeriu você aparecer com um presentinho. E nem vou mandar você levar a bolsa para ela, que sei que a sujeita vai é gostar. Boa noite.

15.1.10

"vou enfiar o dedo no cu dela"

Foto de Ivana Moura.

PLAYDOG
Janeiro de Grandes Espetáculos.
14 de janeiro de 2009.
Elenco: Auricéia Fraga, pascoal Filizola e eu (Cleyton Cabral)
Encenação: Alisson castro, Rafael Barreiros e Rodrigo Cunha.

12.1.10

Vitrine

Pus meus olhos na vitrine
para você me olhar.
Quando você passar em frente à loja,
não escolhe o trenzinho de pilha não.
Chora,
pede,
esperneia
pelas bolas dos meus olhos que descarrila no teu olhar.

Geni

ficou imóvel
no chafariz da
praça como
uma estátua.
queria ser vista
como pedra e ser
atirada a todos
os olhares.

7.1.10

míope

Enxerga-te no reflexo das lentes dos meus óculos. Onde está quem era você no dia em que apareceu em minha vida? Dá-me tua mão, quero pular dessa ponte-coração e fazer das tripas tripulação. Segura e não solta, não solta e segura. Deixa o vento forte entrar em nossos calções. Vamos virar balão? Pra subir é preciso fogo. Joguemos nossos corpos brasas. Contigo, turbulência é música de ninar, trovão é frevo e chuva ácida é valsa. Tu, fenômeno da natureza. Eu, verbo. vamos conjugar todos os os nossos desejos? Onde está quem era você no dia em que apareceu em minha vida? Enxerga-te no reflexo das lentes dos meus óculos.