30.12.10

Meu 2010.

Em 2010, eu sonhei muito. Isso inclui alguns pesadelos e realizações. Mais realizações que pesadelos, na verdade. Eu costumo planejar objetivos a cada novo ano e minha meta é ser feliz. Sempre. Mesmo quando as coisas saem da linha e se desgovernam. Eu vejo o abismo com outros olhos, razão de minha miopia: 4.75 no olho direito e 5.75 no esquerdo. Cego, você deve estar pensando. Nem tanto. Sem exageros. Ok, não sou Deus, mas nasci com a sensibilidade de enxergar de outras maneiras. E isso não é coisa do outro mundo. Também nem sei se se ensina a ver sem os olhos. Talvez se aprenda vivendo, sendo. Em 2010, eu sorri muito e chorei pouco, mas fiquei com os olhos marejados diversas vezes. Eu dancei sem música, mas também não mexi um ombro numa boate. Eu me perdi os quatro dias de carnaval, mas estava fácil de me achar de Wally (eu juro que tenho mais de uma fantasia e que sempre estava cheiroso, apesar de na maioria das vezes eu estar bêbado). Beijei na boca e não quis saber o nome, beijei na boca e quis casar, beijei e não peguei sapinho. Em 2010, completei ¼ de século e ganhei lindos presentes, mas os melhores foram os amigos. Em 2010, eu entrei no MBA em Marketing e Propaganda e deixei de badalar nas noites de sexta-feira (as aulas são aos sábados das 8h às 16h). Cochilei em algumas aulas, vencido pelo cansaço da semana e algumas outras pela aula desinteressante mesmo. Em 2010, minha segunda casa era/é a Agência onde atuo como redator. Lá eu quebrei a cabeça tantas vezes, criei milhares de títulos, me angustiei (faz parte do processo criativo e ideias não caem do céu) porque às vezes não saía nada que prestasse, mas outras e muitas vezes saíram coisas bacanas e é tão bom ver seus filhinhos nos jornais, na televisão, no rádio, na traseira do ônibus. E mais: ver as pessoas comentando, os clientes felizes (mesmo que minha mãe ainda não entenda o que danado faz um publicitário). Ah, na hora do almoço eu malhei na academia ao lado da Agência (mesmo indo dois ou três dias por semana e às vezes nenhuma vez). Em 2010, eu participei do Grupo de Estudos de Dramaturgia da Fundação Joaquim Nabuco e foram muito enriquecedores os encontros e as trocas com os participantes. Só aumentou essa minha paixão pelas histórias. E foi de lá que nasceu Vito, personagem do meu texto teatral O menino da gaiola, do qual fui convidado pelo SESC Pernambuco para participar do Projeto Dramaturgia: Leituras em cena, uma parceria com Núcleo de Teatro para a Infância e a Juventude, que será realizado entre os dias 5 e 11 de janeiro do ano que vem no SESC Santo Amaro (espero todos lá, hein?). Em 2010, eu tive meu conto Percurso publicado na seção Inéditos do Suplemento Pernambuco (edição de setembro) e fiquei muito feliz pelo espaço (mais uma consequência da minha paixão pelas palavras). Em 2010, os contos do meu blog inspiraram o espetáculo Para caber no teu sorriso (que falava do amor, consequência mais uma vez do caso de amor que tenho com as palavras) e experimentei ser platéia, já tão acostumado a estar no palco. É tão bom ver suas palavras tomarem vida na voz e no corpo dos atores. Em 2010, não deixei de ser ator (mesmo fazendo coisas pontuais, adoro estar em cena, me sinto pleno e à vontade). Joguei com outros atores na edição de agosto do Curta Teatro, Projeto tão bacana do Espaço MUDA, que une atores de teatro a diretores de cinema para, juntos, exercitarem o fazer teatral. Também participei da leitura dramatizada do texto Quando Aquiles sangrou ou Suas mãos onde estão?, interpretando Aquiles numa história de amor. Mas estava em meus objetivos desse ano trabalhar com um diretor da cidade que admiro muito e que ele também me falou uma vez: “Quero dirigir você.” Espero que em breve isso aconteça (fikadika). Em 2010, comprei dezenas de livros e li muitos deles, outros estão pela metade. Continuo minha pesquisa acerca da obra e da vida de Hilda Hilst. Das assinaturas de revistas, só venho lendo a Bravo!, as revistas Piauí estão todas lacradas (paciência!). Ana Cristina Cesar vem me consumindo a cada dia. E Caio, e Lygia e tantos outros. Em 2010, fui a São Paulo e perambulei pelas ruas sozinho, tomei chope com uns amigos e café com outros (o Zeca foi umas das melhores conquistas da viagem). Em 2010, fui padrinho de casamento e tremi na entrada do altar. Em 2010, comprei muitas roupas e doei outras, comprei dezenas de Allstar e não me arrependo. Em 2010, fui a muitas festas, bares e Teatros. Em 2010, tomei muitas cervejas (a barriga cresceu um pouco, mas juro que ficou um charme). Em 2010, perdi amigos e ganhei outros (a compensação foi bemmmmm melhor). Em 2010, eu escrevi muito contos aqui no Cleytudo e agradeço por cada visita, os que comentam, os que só leem, os anônimos, todos. E que venha 2011 porque 2010 já está acabando. Abraços e beijos. Um ou outro ou os dois.
Cleyton Cabral.
@cleytoncabral

23.12.10

Acredite em mim

Se eu disser que acredito em Papai Noel você acredita em mim? Ok, eu não acredito. E se eu abrir meu coração para você se proteger da chuva e da ventania, você acredita? Acredite. E se eu abrir meus longos braços para lhe abraçar, você acredita? Ainda está com os braços suspensos?! Vem, acredite. Quero que você acredite que pode contar comigo sempre que precisar. Acredite que fico mais feliz em poder fazer você um pouco mais feliz. Então, Feliz Natal e que nesse novo ano que se aproxima a gente fique mais próximo, ok? Acredite.

Cleyton Cabral.
Uma singela homenagem a quem vem aqui, gasta um tempinho da vida lendo-me.


22.12.10

Carta aos atores

Bárbara, Fernanda, Paula, Lu, Roberta, Sofia, Pedro, Rodrigo, Rafaell e Yuri, para caber no sorriso de cada um de vocês, voltei a ser criança: brincar descalço na rua, tomar banho de chuva, tirar meleca do nariz, fazer bilhetes de eu te amo, tomar picolé de morango mesmo resfriado, roubar dinheiro da bolsa da mãe para jogar playtime, ver revista de mulher pelada escondido e experimentar os prazeres do corpo, deixar de tomar banho antes de ir para o colégio por causa do frio, brincar de pinga-fogo com plástico e queimar os dedos e tantas tantas outras coisas. Na verdade, eu nunca deixei de ser criança. "Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". É tão bom viajar sem sair do lugar, assim com um lápis e um papel em branco, com o teclado e a tela do computador ou com o que a imaginação permitir. Hoje é dia de brincar. Se permitam a ser crianças e brinquem, brinquem, brinquem... sem culpas. Joguem. Teatro é jogo, mas ninguém precisa sair vencedor. Cada um de vocês pode ser herói, príncipe, cavalo, borboleta, avião, cachorro, médico, árvore... o que vocês quiserem. Bárbara, Fernanda, Paula, Lu, Roberta, Sofia, Pedro, Rodrigo, Rafaell e Yuri, no Teatro vocês podem tudo. Desejo uma doce apresentação.

Um beijo do meu tamanho em todos e em cada um de vocês.

Cleyton Cabral.

Recife, 14 de dezembro de 2010.

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Carta aos atores do curso de Iniciação Teatral do SESC, na estréia de Para caber no teu sorriso, espetáculo construído a partir de contos desse blog. A direção é de Rodrigo Cunha.

P.S.: vale registrar que foi lindo e que fiquei muito emocionado ao ver meus contos ganharem vida na boca e no corpo desses novos talentos. Parabéns.

20.12.10

Os cegos é que são felizes.

Parou os olhos na última frase. Paralisado. Era possível ouvir os ponteiros do relógio e os galopes do coração. Lembra que eu tinha uma família construída? Esposa e filhos. Você chegou, invadindo minha casa, meu coração. Eu não queria, mas você foi se aproximando cada vez mais, transformando ausência em necessidade. Sua presença era como uma bomba de ar na qual eu precisava para respirar. Era uma questão de vida ou morte. E se é para manter viva essa chama que você chama de amor, vale a pena eu matar um passado e viver o agora. Carpe diem, você me dizia, carpe diem. Deixei casa, esposa e filhos. Por você, por este amor que você jurava. Isso nunca tinha me acontecido antes. Por que você fez sinal? Por que você me olhou assim? Por que você surgiu na minha frente, como um monstro do Pântano? Eu poderia ser cego. Nunca ter parado meus olhos nos seus. Os cegos é que são felizes. Eles não dispõem desse embaraço que é o olhar. O olho é armadilha do coração. Parou os olhos na última frase e ficou paralisado. Como assim “eu não te amo mais”?

15.12.10

Receita para expurgar

1- Dê play na música que você mais ouviu nos últimos dias, no último volume.
2- Pegue todas as fotos de vocês dois e, de quebra, todas as cartas, cartões de namoro, aniversários, Natal e Ano Novo. (não esqueça os tickets dos cinemas e teatros)
3- Ponha todos os ingredientes do item 2 no liquidificador e acione o nível 6 + processador.
4- Se ficar grosso, adicione um pouco de hidróxido de sódio (NaOH), também conhecido como soda cáustica.
5- Espalhe a pasta na soleira da porta dele(a). Ele(a) poderá não entender nada daquilo. [Arte é isso, cada um faz a sua interpretação.]

13.12.10

Hipnose

Tua mania de colocar os botões da minha camisa de casa em casa e ajeitar minha gola. A maneira como tu me abraças, colocando teus pés descalços sobre os meus. Teus dedos serpenteando os pelos dos meus braços. Tua língua lavando meu queixo de sorvete de creme. Teu corpo-vulcão no inverno. Teus olhinhos músicas de ninar. Tua pele, lençol. Contigo eu só tenho sonhos bons e eu não quero mais acordar. Tu sabes me hipnotizar.

10.12.10

Entre-atos

Ensaios

O que me falas não precisa de repetição, embora você faça sempre as mesmas coisas. (não sei explicar, só sei sentir)

Estreia


Nosso amor começou sem acento.

Quarta parede

Enxergando você na platéia agora. E agora, sou personagem ou ator? O tônus das minhas mãos, a força da minha voz, o olhar compenetrado. Estou interpretando ou sendo-me? Todos os olhos em mim e as palavras saindo da minha boca em sua direção.

Deixas

Fiz da pia jarro, cântaro: abri a torneira e pus as rosas que você enviou para o camarim com um cartãozinho e duas palavras (não era “eu te amo.”)

Aplausos

O beijo, o abraço. Os seus, todos.

6.12.10

Na rede

- Tirando a turma do futebol, tu és o cara que eu mais converso.

- Vai ver que é porque só o pessoal do futebol e eu que te dá bola.

2.12.10

Kickboxing

Primeira aula do sádico fora da cama.

Peregrino

Comprei passagem só de ida: um trem para as estrelas. Embarque no portão da frente, lado esquerdo, entre a costela e o coração. Não fiz malas. Não levarei nada mais que a vontade de conhecer o que há do lado de dentro. Santiago, percurso que afluem aos meus caminhos.

25.11.10

microconto de trânsito

O sinal verde abre meus olhos
O sinal amarelo pede que eu recue
O sinal vermelho impede que eu te ame.

15.11.10

Como fazer um poema Google

Entre no sítio http://www.google.com.br/, coloque uma palavra na barra de Pesquisa Google e veja a listagem de dez associações que o próprio Google sugere. Vamos lá, tente com as palavras “novo” e “velho”. Eis as frases que aparecem para cada uma:

Novo
Novo Uno
Novo Twitter
Novo Fiesta
Novo MSN
Novo som
Novo tempo
Novo Gol
Novo visual do Fiuk
Novo Palio
Novo Fusca

Velho
Velho sábio
Velhos amigos
Velho Testamento
Velho Chico
Velhos outonos
Velho oeste
Velho Chico Rock Clube
Velho faceta
Velho e o moço
Velho mundo

Pronto, copie as frases sugeridas pelo site e trabalhe em cima delas. Acrescente palavras, corte outras, ponha frases inteiras, situações e o que sua imaginação permitir. Boa sorte.

Eis o meu poema Google:

O velho e o moço.

Novo uno e o desejo duplo de pertencer
Tuas graciosidades no novo Twitter (140 caracteres de amor)
O novo Fiesta e eu arriando os quatro pneus por ti
Novo MSN (e sua janela aberta para mim, com um jarro e uma flor)
Roberto Carlos Chico Vinicius, a trilha, o novo som
E o novo tempo de plantar e colher sorrisos
Novo gol – acertando em cheio tua rede, teu coração.
Eu acompanhando o novo visual do Fiuk para chamar tua atenção
(calças coloridíssimas, camisas em vê)
Novo Palio, novo Fusca (a reinvenção – um jeito novo de chegar a ti)

Já dizia o velho sábio: vai
em busca de teus amores em vida
e vivam como velhos amigos.
Velho Testamento (seria um pecado
dizer que tu não é o paraíso)
Velho Chico e suas canções de amor
Velhos outonos onde as folhas caiam sobre
nossas cabeças, fazendo-nos jardim (do Éden?)
O Velho Oeste para trás, nós para frente. Um do outro.
Nossos corpos percussivos (Velho Chico Rock Clube)
O velho tempo e suas facetas: eu encontrei você.
O velho e o moço no Velho Mundo. Juntos.

14.11.10

Balanço

Um parque lindo, verde, graminhas, infinito. Um balanço suspenso no ar, preso nas nuvens. Cada impulso de balançar o coração. A imagem se fez na minha frente: meu vô (trabalhador braçal, cortador de cana, recebe o sol no rosto primeiro que todo mundo). Meu vô parou na minha frente. Trajava um terno rosa bebê, com gravata borboleta, sapatos novos, um sorriso largo no rosto e um canudo de papel na mão. Eu balançava cada vez mais alto. O vô me sorria com a alma (era o motor do meu balanço). O canudo de papel seria meu diploma? O terno rosa bebê seria a roupa de festa do meu vô para a minha formatura? Eu só tinha nove anos. Aprendi com aquela imagem que a vida é que é a maior faculdade que o ser humano pode cursar. Existem as provas, o trabalho em equipe, as notas. Naquele dia eu me balancei mais alto. Sorrir é matéria indispensável na escola da vida.
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Dedico este a amável Katianne Lima.

12.11.10

Filhos, árvores e livros.

Não, não tenho filhos. Ainda não. Já penso em nomes. Gosto de Beatriz. Talvez porque tem atriz dentro do nome. Se menino for, Caio. Assim, Caio de alegria. Lembra peraltice, mesmo que caia e machuque o joelho. Só quero filhos quando puder levá-los na escola, buscar na saída. Não os quero para alegrias rápidas de McDonald's num fim de semana. Não quero filhos ausentes, apenas para fotografias no Natal em molduras. Acho que não sei ser pai ausente. Se já plantei uma árvore? Em criança, coloquei um feijão no algodão molhado num potinho de margarina e germinou. Pé de feijão vale? Eu acreditava que poderia chegar a uma terra acima das nuvens como João pé de feijão. Não publiquei nenhum livro, não.

7.11.10

propaganda enganosa

‎- Cleyton, você é igual ao Club Social: inconfundível.
- Ok, agora dá uma mordidinha.

27.10.10

santinho

Na tua boca de cimento, palavra pedra, tropecei. Desci tua garganta-esgoto, discurso de merda, palavra suja qual chorume. É ano político, meu bem, mas não tens meu voto. Bem sabes, eu não acredito em ti. Podes tirar a gravata e o paletó (a vida não é um estúdio). O voto é uma escolha e hoje eu escolhi esquecer você.

26.10.10

Sincronizados.

Amanhecendo olhos negros desérticos desaguando em meus olhos-cais. E a insistência em dizer: eu não sei nadar. Amar é deixar-se afogar. Boiar, talvez. Aprende-se a amar amando e a nadar nadando dando certo ou não. É preciso sair do raso. É preciso mergulhar de cabeça. Nado livre, amor livre. Fazer da vida trampolim, amor em suspensão.

21.10.10

Tire o cavalinho do sol.

Sinceramente, eu não vejo o cavalo como um meio de transporte, nunca vi. Bicho não nasceu pra levar chicotadas. Sem falar que cavalo não tem rodinhas nem gasolina. Imagina: comprei um cavalo com 200 cavalos, design arrojado, o bicho não corre, o bicho voa. Cavalo é um carro de quatro pernas que sente dor.

19.10.10

Unidos por um big big

Ele guardava a goma de mascar embaixo da carteira para durar mais. Ela deixou um bilhete colado na goma: sou doce e não perco o sabor. Casaram de mentirinha na hora do recreio. Dividiam o waffer de abacaxi e o suco de melancia. O primeiro beijo foi na sala da Diretoria, quando ficaram de castigo por riscarem eu te amo no quadro-negro (uma das primeiras aulas de amor). Casaram de verdade e vivem grudados feito chiclete.

18.10.10

microconto de sucesso

Lidava muito bem com a carreira.
Mas não era a de artista.
Terminou morrendo e deixando muitos fãs.

15.10.10

microconto carente

- Vou na McDonald's, quer alguma coisa?
- Traz o Ronald.

Quero falar da violência.

Você dizer que me ama e no outro dia mudar de calçada é violência. Suas mãos puxando meus braços como se eu fosse um objeto é violência. Violência é você jogar seu fultebozinho e me deixar com as crianças em pleno domingo de sol. Você não me deixar falar é violência. Você GRITAR como se eu estivesse surda é violência. Violência é você querer transar comigo apenas porque casamos e moramos juntos. Você trocar meu nome na cama é violência. Você usar de suas posses é violência. Violência é você dizer que está tudo bem quando na verdade não está. Você não jantar na mesa comigo é violência. Suas cuecas como enfeites de árvore de natal pela casa é violência. Violência é você achar que ter uma mulher é só para fornicação. Você me colocar contra as crianças é violência. Suas mãos me deixando marcas no rosto e no coração é violência. Violência é viver ao seu lado.

8.10.10

O privilégio do café da manhã na cama

Tuas pernas torradas, teus lábios gelatinas (o suco da tua boca, os beijos-queijos-todos), as maçãs rosadas do teu rosto cremoso. E o sol como brinde penetrando as persianas?, vontade de dizer. Calo-me e devoro-te. Degusto cada parte tua como numa oração. Começo com os espaços entre os teus dedos dos pés, sem frieiras ou calafrio. Sou bom devoto, tenho verdadeira adoração pelos teus pés. Preencho com beijos e lambidas tuas falanges, por mais que tuas cúmplices meias tenham ciúmes (elas te aquecem do frio dia e noite, eu te aqueço em qualquer estação). Estou satisfeito.

30.9.10

Vida sucessão de vidas.

Para mim, tem um sentido as coisas acontecerem ou deixarem de acontecer. Perder um trem, atrasar um encontro, passar num boteco e tomar algumas cervejas sem motivos maiores. É como se você parasse os ponteiros do relógio, sabe? Segundos, minutos e horas suspensos. Sem tic-tac. Sem tempo. A vida para mim só faz sentido quando o tempo é agora. Agora, e depois de três segundos já era. Percebe? Agora, já foi. No momento em que as palavras me escapam no teclado já foi. Um, dois, três e não é mais. Não há. Não está. Viver é isso. Deixar de viver ponteiros, tic-tac, despertador. Viver é despertar a dor agora. E já não é mais.

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Dedico este post ao amigo Zeca, a quem tenho gigante apreço.

22.9.10

21.9.10

Papel de presente.

Pus meu coração na vitrine. Você passou em frente à loja e perguntou a vendedora quanto custava. Você resolveu levar. Se bem que é difícil para você lidar com objetos que não sejam ligados a finanças, números, cotações. De toda forma aí vai o manual de instrução, ok? No primeiro dia que você me viu, olhou, levou embora meu coração e o perdeu. Afinal, você não soube nem tirar o embrulho.

17.9.10

QUANDO AQUILES SANGROU ou SUAS MÃOS ONDE ESTÃO?

QUANDO AQUILES SANGROU ou SUAS MÃOS ONDE ESTÃO?
Teatro Santa Isabel (Salão Nobre), 17/09, HOJE, às 18h. >>Entrada franca<<

Texto: Carlos Bartolomeu.
Direção: Wellington Jr.
Elenco: Cleyton Cabral e Pascoal Flizola.

Release:
Alegoria da perda amorosa dentro de uma relação homoafetiva. Desfilando memórias e a possibilidade de um discurso romântico dentro da internet, dois personagens, um no presente e outro na Grécia antiga dialogam sobre a amorosidade, a impossibilidade do casal e a superação, no encontro com o ato de recordar.
Aguado você lá.

15.9.10

Dentro e fora.

Dentro, sangue, fígado, osso e coração. Fora, pele e contemplação. Onde está você entre meu interior e meu exterior? Fêmur, colo, visitação. Úmero, abraços, vai embora não. Pélvis, desejo, fornicação. Suor, frenesi, ejaculação.
Ejaculação, frenesi, suor. Fornicação, desejo, pélvis. Não embora vai, abraços, úmero. Visitação, colo, fêmur. Exterior meu e interior meu entre você está onde? Contemplação e pele, fora. Coração e osso, fígado, sangue, dentro.

14.9.10

Dos dias frios.

Drummond disse com tanta firmeza: a vida não se perdeu e o coração continua. Ouso te responder porque os invernos são dramáticos e perigosos: porque invernos não vêm com abraços em forma de cachecol.

13.9.10

Economia política dos afetos.

Troca-se a sala de estar ou a sala do cinema pelas salas dos chats. Troca-se a rede de dormir pelas redes sociais. E assim o coração vai ficando cada vez mais digital. O amor através de logins e senhas. Oferta-se flores nas janelas do MSN em vez de comprá-las na floricultura da esquina com perfume e presença. Não há contemplação nas janelas das casas. Há dezenas de janelas abertas nas telas dos computadores. Eros através de milhões de pixels, acertando flechas a cada teclada, em cada discurso platônico, cada imagem multifacetada. Hoje não se segue por ruas compridas a fim de que se possa receber um abraço. Segue-se no twitter. Ninguém dá bom dia boa tarde boa noite, mas todos querem ser seu amigo no Facebook, Orkut. Quepassa?

10.9.10

tu

Tua coleção de gafanhotos (e a vontade de se transformar em um só para estar sempre na tua casa, mesmo que trancado no teu guarda-roupa).
A maneira como tu abres a porta para mim (abrindo um sorriso logo em seguida).
O teu beijo de hortelã no meu olho (que mesmo fechado enxerga teus lábios e cura qualquer dor de cabeça).
Todas as luzes apagadas na brincadeira de esconde-esconde (eu te encontrei dentro da geladeira qual um esquimó e te levei ao forno brando).

31.8.10

nossos corpos no reflexo da tevê

E muito mais interessante que o sexo é olhar sua instabilidade. Toda. É saber que depois do sêmen lançado no ar em direção ao meu tórax semeamos o momento de estarmos um com o outro. Mesmo sabendo que você vai embora. Sem olhar para trás. O que importa o tempo passado se podemos viver o agora nesse fluxo de nossos corpos suados? Cais. Ele acendeu o segundo cigarro olhando o próprio reflexo na tela da tevê desligada. Eu olhava sua nuca, a dobra do braço e aquela mão que sabia o início e o fim de mim. A mesma mão que um dia dirá adeus. E muito mais interessante que pensar em sua viagem de não mais voltar é sentir seu beijo de pêssego em calda. Tudo. Os pentelhos. Todos. Os abraços que partirão para sempre na ilha sem fim.

24.8.10

Sinto um deserto imenso aqui dentro

Você pediu e eu te dei. Você foi chegando aos poucos, tapando os combogós, me livrando do frio dos dias. E eu era tão inexperiente, não sabia dizer sim nem não. Segurei em sua mão e não mais quis soltar. Com ela fiz balanço, gangorra, parque de diversões. Meu sorriso largo. Tuas mãos de cachecol. Só você sabia acalmar os ventos fortes. Em qualquer estação, só você. Eu fui querendo permanecer, ficar. Ei, devolve meu coração. Não quero mais ser a fonte esquecida da praça central sem jorrar água.

Adicionar imagem

20.8.10

microconto para todas as idades

ADULTO – Pare de comer o camarão! É tira-gosto! É pra beber!
CRIANÇA – Eu sou bebê.
ADULTO – (...)

18.8.10

microconto devotee II

Seus braços chegavam até depois dos cotovelos. Já seus abraços, percorriam o infinito pleno do meu ser. Eu gosto dos seus abraços. Gosto da suave música do teu corpo no meu. Dentro. Aqui dentro do meu coração. Nem parece que você é diferente. Você é tão igual. Você é tão minha. Você é tão. Você.
___
*Devotee é uma categoria de pessoas que têm fetiche pela deficiência. O que lhes atrai é a deformidade, é a especificidade de cada deficiência.
Esse é o segundo microconto que escrevo para alimentar a pesquisa "O Corpo Pertubador", do bailarino Edu O.

17.8.10

microconto do desacordo ortográfico

O hífen está puto
porque o supersônico,
a minissaia e o ultrassom
perderam o hífen e ele
continua com sua
pneumonia aguda.

16.8.10

Eu vou, tu vinho.

Abro a porta. Tu me esperas na cama com um vinho afogado no balde de gelo. Duas taças. Dois corpos quentes. Nossos desejos um pelo outro. Teu sorriso largo e eu me perdendo em teus braços. Nossos pés desenhando a beleza da vida no ar. A falta de ar. Tu balão de oxigênio. Teus batimentos. Eu cavalgando na estrada do teu colchão ortopédico. Suspensa. Suor. Sede. Saliva. Tu me bebes com um bom vinho branco. Gozo e espuma.

13.8.10

1:05

Apertou o play na cannonball do Damien Rice. There's still a little bit of your taste in my mouth. Pêssego, amora ou caqui? There's still a little piece of your face I haven't kissed. Pera, uva, maçã ou salada mista? Deu stop e foi ver tevê. Quem te viu, quem te vê.

4.8.10

noite

A cidade dorme enquanto nossos corpos em convulsão procuram o fim do começo do fim.







3.8.10

sala de estar com você

O sofá cheio de farelos de bolacha, enquanto assistíamos a um filme qualquer, e o seu beijo de suco de maçã. As persianas da janela aplaudindo nosso amor com o vento que adentra o apartamento e os raios de sol fotografando nossos pequenos desejos: contemplar nossos rostos e sexos sem nexo, abraçar como em uma despedida sem lágrimas, passear as mãos em territórios da alma.

1.8.10

dos voos

- Já escolheu o desenho?
- Sim, um par de asas.
- Um par de asas?
- Sim.
- Você já tem asas invisíveis, não precisa mais.
Ilustração de Luis Fabiano Teixeira sobre pôster do MoMA.

20.7.10

Feliz Dia do Amigo

LUCIANA PONTUAL • LEIDSON FERRAZ • GEORGE FARIAS • JAVA ARAÚJO • RODRIGO CUNHA • KATIANNE LIMA • LUCIANA MORAES • PAULINHA CAVALCANTI • MARÍLIA SILVA • FELIPE BOTELHO • KYARA MUNIZ • ZECA COELHO • AMANDA CRISTINA • JANAÍNA DE PAULA • DIRCE GOMES • TALITA CASTRO • AURICÉIA FRAGA • PASCOAL FILIZOLA • NEEMIAS DINARTE • BRENNO ALMEIDA • WILMA SANTOS • CARLOS BARTOLOMEU...
E a todos que direta ou indiretamente me fazem mais feliz, obrigado.
_
"Quando meu amigo está infeliz, vou ao seu encontro.
Quando está feliz, eu o espero!"
[Henri-Frédéric Amiel]

19.7.10

microconto devotee

- Vou te contar um segredo.
- Qual?
- Eu transei com um homem de uma perna só.
- E aí, foi legal?
- Ele ficou numa posição ótima e me fez de moleta.
___
*Devotee é uma categoria de pessoas que têm fetiche pela deficiência. O que lhes atrai é a deformidade, é a especificidade de cada deficiência.

13.7.10

de dentro

Com você cerveja quente é gostosa, revistas do ano passado no consultório é pura novidade, praia sem sol é o maior paraíso. Para você ver: até quando estou triste, ao seu lado eu sou o cara mais feliz do universo. E olhe que isso não é da boca pra fora. É daqui ó, sai daqui de dentro.

12.7.10

eu gosto das coisas mais simples

Gosto quando você dirige com uma mão no volante e a outra do lado de fora estendida, como se quisesse pegar o ar.

7.7.10

uma historinha

Era uma vez, quer dizer, eram todas as vezes que eu ia ao bar. Era o jeito de sentar, pendendo um pouco para o lado direito. A maneira de levar a bebida à boca, parando um ou dois segundos entre a mesa e os lábios. As pernas cruzadas com elegância, contrastando com os cabelos desgrenhados. O mesmo horário. Onze horas. Comecei rasbicando sua silhueta num guardanapo com a caneta emprestada do garçom. As têmporas. O dorso. O tórax. O quadril. As canelas. Demorei em seu rosto. Você nem imagina que fora inspiração para minhas telas. Você na sala sobre as avencas. Você no quarto dividindo a atenção com a tevê desligada. Você no terraço de frente para os cantores sabiás. Você sempre esteve em mim. E todos foram felizes para sempre?

5.7.10

um postal pra você

Bateu uma vontade enorme de escrever à caneta. Desejo mandar postais para os visitantes do Cleytudo: os assíduos, os anônimos, os que vem uma vez e outra ou você, que chegou aqui pela primeira vez. Os 10 primeiros que enviarem o endereço para o meu e-mail (ccomunicador@gmail.com) receberão um lindo postal em casa. Abraços.

30.6.10

bilhete na porta da geladeira

Você é impressionante.

Porque é você quem faz o melhor cappucino do mundo e aquela sopa de legumes extraordinária. Porque você tem cheiro de lavanda e algodão, mesmo nos dias mais quentes. Porque você sabe o que é sexo e o que é amor. E a fusão dos dois com você é simplesmente divino. Porque sinto você até quando você não é. Deixa eu envelhecer ao seu lado?

Minha primeira saudade na primeira pessoa

Eu me vi no asfalto com dois anos. Eu não sabia o que era saudade e já começava a senti-la. Eu gostava desse vestido do Snoop, das botinhas ortopédicas, dos passeios no parquinho, de andar segurando as mãos de papai e de mamãe e pular poças da água da chuva. Lembro-me de que esse foi o último passeio. Papai me abraçou bem forte escondendo a chuva dentro dos olhos, mas eu vi tudinho com meus olhos de guarda-chuva.
_
*Fotografia e Photoshop de Luis Fabiano Teixeira.

21.6.10

Controle remoto

Tinha um ventilador dentro do peito,
um liquidificador no sexo e mudava a
vida de canal a cada minuto.

14.6.10

Diálogos na Praça

- O que é um chafariz?
- O mesmo que uma fonte. É uma construção, ornamental ou não, provida de uma ou mais bicas, de onde jorra água. Geralmente, situa-se em local aberto à visitação pública, como praças e jardins.
- Hum, e o amor, o que é que é?

13.6.10

Amor a domicílio

- Por favor, um homem desquitado, não-fumante e, se possível, sem problemas (se é que existe). Ah, não esquece a coca zero dois litros e troco para cinquenta.

18.5.10

menino Teatro

O menino Teatro, com 2.500 anos a.C chora.
O menino desamparado chora e mostra sua
máscara trágica à lâmina espelhada do Capibaribe.
E o menino Teatro silencia os tambores com a
expressão do luto. Menino Teatro se transforma
em coro e chora.
Foi muito digno e triste e feliz e corajoso participar do ato público em frente ao Teatro de Santa Isabel ontem. Paradoxal, mas me senti mais artista, por lutar por uma política cultural mais digna. Mesmo que tenha sido um pequeno passo, foi um passo importante para que sejamos respeitados e valorizados com a nossa arte, assim como merecemos. Obrigado a todos os amigos artistas que foram. Obrigado aos que foram e não ficaram de braços cruzados. Fica a dica.
Recife, 18 de maio de 2010.

17.5.10

vou contar até 100

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20...
Pronto, agora vou procurar por você.
Ele se escondeu para todo o sempre.
Ela não quer mais brincar de amor.

7.5.10

O olho de trás é cego, mas pode disparar a qualquer momento.

Gostava de adivinhar o que a pessoa fazia pela cara, pela postura. E nem precisava ouvir a pessoa falar. Era engraçado porque quase sempre acertava. Quer dizer, sempre acertava. Cabelos ficando grisalho, bigode Hitler, unhas roídas e com sujeira, pele queimada do sol, barriga de chope, camisa de botão com uma preta por dentro, calça jeans e tênis. Estava na cara que era um policial civil. Os policiais civis uma vez e sempre são grisalhos, usam bigode Hitler, têm as unhas carcomidas e sujas, além do corpo avermelhado das rondas diárias. O celular do fulano soou e ele atendeu dizendo termos que só confirmaria o jogo de adivinhar: É, esse vai cair rapidinho, tem cara de bonzinho o rapaz. Não dou mais um dia, escreve o que estou dizendo. Desligou o telefone sorrindo por cima daquele bigode, como só um policial civil sabe fazer. Ele tinha uma arma entre as costas e a bunda.

3.5.10

Deitados no asfalto, eles só queriam ser felizes.

Deitados no asfalto com o sol na cara, às 6 da manhã, coreografando o trago do cigarro olhando o céu, enquanto os outros pisavam no acelerador achando tudo aquilo estranho. Era preciso deixar os cabelos lavados ao chão. Era preciso deixar a areia colar nas costas. Era preciso estar ali. A cama de concreto e o sorriso caiado recebendo os primeiros raios da manhã. Bêbados e felizes.

19.4.10

Nhá Nhá

Era um sábado ensolarado e ela foi ao mercado dentro de um vestido florido, em cima de sandálias baixas, com os cabelos despenteados e uma sacola de feira nas mãos. Se ela não tivesse nome, poderia ser chamada de Alegria. Uma alegria que é diferente de gargalhar, uma alegria que é diferente de ter posse de algo desejoso ou caro demais, uma alegria que não é ganhar na loteria. Você me entende, caro leitor, ou quer que eu faça mais alguma comparação? Tudo bem: uma alegria como a primeira barba, o primeiro encontro, o primeiro banho de mar. Uma alegria que está nas bolotas dos olhos, nas maçãs do rosto, uma alegria assim. Maria José de Mendonça encantava quando passava, e olhe que ela não é a garota de Ipanema não. Ela é da cidade de Matinhos e era conhecida como Nhá Nhá. Entrando em um corredor e saindo noutro, Nhá Nhá escolhia uns versos maduros, caídos do pé, fresquinhos. Apalpava cada rima como boa plantadeira de poesia. Cheirava cada palavra rosa romã com mãos irrigadas de sentimento. Jogava umas palavras que caíram do pé antes do tempo, abortadas na estrofe estéril e colocava na sacola aquelas que tinham um suco substancial, as que dariam um belo ponche-prosa. E saiu do mercado distribuindo poesia por onde passava.

mim

Mim Acauã está afastado da tribo.
Mim não usa penacho nem cocar, mim já cresceu com MP4,
mim já vê a imagem através de um clique da câmera digital.
Mim não usa colares e brincos, mim já possui piercing de aço cirúrgico e tatuagem.
Mim não dança para chuva cair, mim ver o novo clipe da Lady Gaga no youtube.
Mim não bebe chicha, mim provou coca-cola e gostou.
Feliz dia do Índio.

14.4.10

percurso

Ele disse que aquilo não era traição, que dividir o mesmo vagão do metrô com a ex não significava traição, e era coisa do acaso. É claro que a culpa é do acaso. É sempre do acaso, do destino, sempre a culpa é de quem não tem garganta, de quem não sente frio, não pega metrô. Que eu saiba acasos ou destinos não tem pernas nem coração, nem olhos para ver seu namorado com a ex dentro de uma estrutura de aço que desliza por trilhos. Por segundos, passara um filme na cabeça de Daiane, abre parênteses, Eu, Davi, recebo-te por minha esposa, Daiane, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da minha vida, fecha parênteses. E ainda dizia: quero passar os dias de velhinho ao teu lado e usar bengala. Tantas demonstrações de afetos e promessas para descarrilar assim nesse desentendimento. - Você não tirava os olhos dela, eu tenho certeza, tenho certeza que você marcou jantar, disse que sentia saudades, que ela estava linda. - Amor, Não tem razão para tantos ciúmes, eu só estava no mesmo vagão que ela, em um espaço que é público, deixe de nóias, ele disse dando o nó na gravata e olhando para Daiane pelo espelho. Ela o abraçou por trás encostando a cabeça em suas costas. - Você não me ama mais, ela disse deixando suas lágrimas molhar a camisa branca de botão dele. Ele nunca a traiu. Nunca. Só encontrava com a ex porque ela era segura, otimista, bem-humorada e possuía personalidade forte. Depois de alguns dias, Daiane voltou para a terapia. Davi não voltou mais para casa.

22.3.10

Exercício de humildade 1

Depois de um acidente, por dirigir embriagado, cantor famoso derreteu suas dezenas de discos de platina para colocar nas fraturas que teve por todo o corpo.

19.3.10

presente de aniversário

Hoje quando caminhava para a agência vi algo que nunca mais tinha visto. Uma borboleta, quer dizer, duas. Amarelas, bailando no ar, assim na minha frente. Eu era o único espectador naquele momento e fiquei feliz. Não por ser o único contemplado, mas por ter visto aqueles insetos no dia que ganho nova idade: ¼ de século e eu não sou mais larva. A crisálida vida já me preparou para voar. Mesmo que algumas vezes eu bata as asas na hélice do ventilador, que alguém atire uma pedra com baleadeira por maldade, ou até mesmo, que eu escolha voar por jardins envenenados. Em alguns momentos, erros fazem sentido. Eu ouvi isso uma vez e para mim faz todo o sentido porque escolhi viver a vida com a minha verdade: ora acertando, ora errando, mas sempre querendo acertar.

17.3.10

Stufana

Stufana (nome derivado da expressão ‘estufa humana’) é uma cidade coberta que fechou suas portas em 1959 com a finalidade de passar cinqüenta anos em total isolamento, na busca de soluções para os problemas que a humanidade enfrentaria no início do terceiro milênio. Na minissérie, nove pessoas saem secretamente da cidade coberta dois anos antes de sua reabertura oficial, visando conhecer melhor o mundo que, supostamente, deverão salvar. Essa saída é necessária, pois as descobertas dos stufanens podem não agradar muito a certos interesses vigentes na sociedade atual.
O lançamento de Stufana será dia 22 de março de 2010 (segunda-feira), às 19h30, no Cinema da Fundação (Derby, Recife-PE). Entrada gratuita.
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Os episódios de Stufana serão exibidos a partir do dia 04 de abril de 2010 (domingo) aqui neste blog, com uma postagem por dia, sempre às 21h.
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Pisar em território desconhecido desperta angústia ou desejo de descoberta. Escolhi a segunda opção, por excelência. Escrever para Stufana me abriu possibilidades de embarcar no mundaréu de facetas que é a mente humana e a crescer como homem e artista.
Cleyton Cabral (Episódio III - Marana e Cora)

15.3.10

Café da manhã

As duas maçãs do teu rosto com aveia, afagos e mel.

Almoço

Tua costela para deitar em tardes frias, tuas mãos quentes, tua boca pequena, tuas narinas de sentir nosso cheiro de travesseiros amassados.

13.3.10

11.3.10

Primeira pessoa, tu.

Eu quero o teu beijo amarelado de Klimt.
Eu te levo para desbravar a Pasárgada de
Bandeira.
Eu quero o teu beijo de pedra de Rodin,
Eu te mostro toda a poesia de Vinícius e
a gente dança uma bossa nova no mesmo
Tom.
Eu não tenho pressa, mas tenho urgência de
querer-te com a ironia ímpar de Machado.

8.3.10

internet (amor) explorer

Clicou em enviar e logo em seguida em cancelar, voltar, mas o e-mail já tinha fugido. Droga! Se fosse uma carta daria tempo de pensar duas vezes antes de postar nos Correios. Porque essa coisa de internet é rápido demais, você pensa e já está lá do outro lado. Sem selo. Sem carimbo. Sem cheiro de papel. Sem ao menos sua letra de anos de caligrafia. Perdeu-se a magia e agora enchem as telas de emoticons: sorrindo, surpresos, com raiva, chorando. Isabella agora chorava arrependida, por ter mandado por impulso “eu te amo” para o e-mail do cara que ela conheceu na noite passada. Era cedo. Muito cedo. Cedíssimo. Ela aprendera que dizer eu te amo para uma pessoa não pode ser assim tão cedo. Passados dez minutos, um e-mail em sua caixa de entrada: incrível, que aos meus trinta e sete anos, isso nunca me aconteceu. Te conheci ontem e já quero você para a vida toda. Rafael.

mulheres

Mulheres que lutam. Guerreiras do dia a dia.
Mulheres que encantam. Sereias da beleza e da doçura.
Mulheres que geram vidas. Mães com o dom de proteger e amar.

8 de março – Dia Internacional da Mulher.

Minhas leitoras, desejo muitas felicidades. Hoje e todos os dias.

26.2.10

Homem de sorte

Uma rua escura. O assaltante apontou a arma para ele, que se rendeu jogando os braços para cima e dizendo leve tudo menos minha vida. Antes de terminar a frase, o assaltante cambaleou para trás e caiu com arma ao chão e ele escapou fedendo. Sorte do mau hálito.

19.2.10

no meio da folia

Piratas, Pierrots, Índios.
Odaliscas, Enfermeiras, Fadas.
Onde estavas no meu Carnaval?
lolófrevolançamaracatuecerveja.
Onde estavas no meu Carnaval?

11.2.10

demissão

Ela terminou o namoro com ele e na mesma noite ele tirou o "namorando" do Orkut e colocou no Twitter: estou solteiro, se souberem de algo me avisem.

O amor nada

Quero mergulhar nesse sorriso-oceano,
fisgar teu coração-peixe
e fazer uma ciranda com nossos corpos-arrecifes.

10.2.10

Dos silêncios

Não precisa falar nada não. Permita-me apenas a ficar contemplando as dobrinhas dos teus dedos e fazer as linhas da minha mão se completarem nas tuas. E ficou um tempo sem tempo assim, fotografando com o olhar e revelando do lado de dentro. Algo mudou naqueles segundos, talvez um avivamento, uma pequena certeza de permanecer, de estar, de ser.

9.2.10

Poema com shoyo

Para caber no teu sorriso
não é preciso muito esforço,
basta olhar firme para essa
sua cara de quem não sabe
comer sushi no palitinho.

1.2.10

o olho que vê, sente, ouve e abraça.

a partir de agora vou conversar com você olhando para os seus pés. é que você me olhando assim, sei não. seus olhos são duas luas cheias refletindo no espelho do mar. e como se deixar banhar por esses olhos que me incitam a mergulhar rasante? passear por suas íris, dilatar suas pupilas. me afogar de desejo. 

31.1.10

possibilidades medianas

Amor, hoje é o meu dia, você fica com a Clarinha, já que não confia com quem deixá-la. Para Célio era assim: família com criança, como no caso dele, deveria priorizar os cuidados já que hoje não há de confiar nas babás e em ninguém, afinal o mundo está cheio de malucos. Um dia ele se diverte com os amigos, outro dia ela se diverte com as amigas, mas um tem que ficar em casa com a criança. Hoje é sexta e ele quer tomar umas cervejas com os colegas do trabalho. Simone fica em casa com Clarinha. Simone tem ficado em casa desde que a pequena nasceu. Célio deixou claro: trabalhamos no comércio, emprego mediano, e como as mensalidades de hotelzinhos para crianças são caríssimas, é o mesmo que trocar o salário, você fica em casa, eu trabalho okey? Um médico jamais deixaria o emprego para cuidar de um filho, mas devemos admitir que nosso emprego é uma bosta. Simone não ficou com raiva, ela entendeu perfeitamente que Célio se preocupava com a filha, era um bom pai. Célio trabalhava, fazia feira, dava de um tudo em casa, mas mesmo assim, Simone continuava desconfiando que estava sendo traída pelo pai de Clara.

27.1.10

SANTA & PACIÊNCIA VI

SANTA – Amiga, estava louca para falar contigo.
PACIÊNCIA – Conseguiu fazer as posições do Kama Sutra.
SANTA – Não. Não é isso, amiga.
PACIÊNCIA – E o que é então?
SANTA – É uma curiosidade. Assim, passei em frente a uma banca de revista e uma matéria de capa chamou minha atenção: É DOS CARECAS QUE ELAS GOSTAM MAIS. Truques e Segredos para arrasar na cama.
PACIÊNCIA – Isso tudo é o nome da revista?
SANTA – Não, o nome da revista é A ARTE DE TER TESÃO.
PACIÊNCIA – Ah, tá. E qual é a curiosidade?
SANTA – Então amiga, comprei a revista e fiquei encantada com a matéria que falava que os carecas têm ereção prolongada.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E que queria saber se é verdade, afinal o Jairo, seu namorado, é careca.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E ele demora mesmo com o pinto duro?
PACIÊNCIA – Sim, muito.
SANTA – É que o Mauro é assim: eu abaixo a calcinha e ele já fica quase gozando. Tão difícil. Queria outras experiências... e agora estou curiosa para encontrar um careca.
PACIÊNCIA – Sei.
SANTA – Assim, é que queria matar essa curiosidade com você... Olha quem vem por ali, o Jairo. Ele sempre chega a essa hora, não é?
PACIÊNCIA – Acertou. Tchau amiga, depois a gente conversa mais.
PACIÊNCIA – Ah tá, tchau.

(dois beijinhos: Mummmmmm-ráááááá, Mummmmmm-ráááááá)

26.1.10

garimpo

Vou
cavando
cavando
cavando até
encontrar você
sem armaduras e cordão
de isolamento, fazendo buracos
em tua alma, procurando pepitas,
trepidando com minhas mãos, vacilantes.

18.1.10

presentinho

Ele entrou segurando o pacote enrolado em papel de presente, acendeu a luz da sala, ligou a tevê e seguiu em direção ao quarto, que parecia o Pólo Norte com o ar condicionado no máximo. Ela já estava de camisola e lia um romance italiano com as pernas apoiadas por uma almofada. Ele disse boa noite, benzinho e beijou-lhe a cabeça tirando os sapatos. Ela respondeu e no momento do beijo comprimiu os olhos e fechou o livro marcando a página com o dedo. Ele estendeu o braço com o pacote. O que é isso?, ela perguntou surpresa. Abra, ele disse, acho que você vai gostar. Ela deixou o livro de lado e abriu o presente com cuidado para não rasgar o papel colorido. Sem muita felicidade ela pergunta, uma bolsa? Ele disse sim com a cabeça, Não gostou?, insistiu. Gostei, ela disse querendo dizer não e guardou o presente no guarda-roupa. Mário tomou um banho e foi ver televisão na sala. Ângela foi ao guarda-roupa novamente conferir o presente. Meu Deus, que bolsa ridícula! Nunca vi objeto mais folclórico, se eu colocar na rua é capaz de pensarem que é um caboclo de lança, uma apresentação de maracatu ou algum despacho. Mário, vamos conversar?, disse invadindo a sala às três da madrugada. Oi, amorzinho, o que foi que aconteceu? Eu só gostaria de saber se esse presente que você trouxe era para mim mesmo, ela perguntou olhando nos olhos dele. Sim, môzinho, claro. Mário, somos casados há vinte anos e você sabe o que gosto, no mínimo. Não gostou do presente, é isso?, ele perguntou ofendido. É piada, né?, ela desafiou. Essa bolsa é um tanto ridícula, não tem nada a ver comigo. Nada, na-di-nha. Você estava com quem quando comprou? Ângela, eu é que não estou entendendo nada. Ah, é filhinho? Com quem você estava na hora de comprar esse carnaval? Foi sugestão da vendedora da loja. Ah, que meigo, que bonitinho, que lindinho você. Nunca me traz um alfinete e quando chega com alguma coisa é assim. Pois, pode devolver à loja. Eu tenho certeza que foi alguma putinha que você tá pegando que sugeriu você aparecer com um presentinho. E nem vou mandar você levar a bolsa para ela, que sei que a sujeita vai é gostar. Boa noite.

15.1.10

"vou enfiar o dedo no cu dela"

Foto de Ivana Moura.

PLAYDOG
Janeiro de Grandes Espetáculos.
14 de janeiro de 2009.
Elenco: Auricéia Fraga, pascoal Filizola e eu (Cleyton Cabral)
Encenação: Alisson castro, Rafael Barreiros e Rodrigo Cunha.

12.1.10

Vitrine

Pus meus olhos na vitrine
para você me olhar.
Quando você passar em frente à loja,
não escolhe o trenzinho de pilha não.
Chora,
pede,
esperneia
pelas bolas dos meus olhos que descarrila no teu olhar.

Geni

ficou imóvel
no chafariz da
praça como
uma estátua.
queria ser vista
como pedra e ser
atirada a todos
os olhares.

7.1.10

míope

Enxerga-te no reflexo das lentes dos meus óculos. Onde está quem era você no dia em que apareceu em minha vida? Dá-me tua mão, quero pular dessa ponte-coração e fazer das tripas tripulação. Segura e não solta, não solta e segura. Deixa o vento forte entrar em nossos calções. Vamos virar balão? Pra subir é preciso fogo. Joguemos nossos corpos brasas. Contigo, turbulência é música de ninar, trovão é frevo e chuva ácida é valsa. Tu, fenômeno da natureza. Eu, verbo. vamos conjugar todos os os nossos desejos? Onde está quem era você no dia em que apareceu em minha vida? Enxerga-te no reflexo das lentes dos meus óculos.