10.11.09

sobre voo

Entre malas de rodinhas, locução de destinos para todos os cantos do mundo e barulhos de pouso, Ele estava inteiro no saguão de espera. Senhores leitores passageiros, por favor, se estiverem de pé sentem-se e se estiverem sentados apertem os cintos que essa é uma história de amor turbulenta. Em caso de enjôo têm saquinhos no bolso do assento, chicletes, banheiro. Letícia era firme em todas as suas decisões. Em criança, quando queria ganhar uns trocados para comprar guloseimas conseguia sem muito esforço, quando queria tirar dez em matemática, quando queria um beijo de um menino da escola, quando queria, quando queria. Ela sempre queria. Sempre. E ela queria demais. Queria até o que tinha dono, homens casados, por exemplo. Porque para Letícia o que importava era o desejo, acima de tudo e de todos. Felicidade pra ela era um cachorro vira-lata, socos e afetos e pulgas atrás das orelhas. Formou-se em jornalismo, tinha um emprego bom, escrevia para uma revista adolescente, mora só desde os dezesseis. Gostava de iogurte de ameixa, camisinha de banana e chá de hortelã. Ouvia rock, colecionava caixas de fósforos e cuidava de um cacto que ficava na janela do quarto. Tirou férias e tirou as passagens para Recife, queria conhecer as praias do Nordeste. Na boate, o Barman já lhe conhecia, bastava ela aparecer que ele já ia pegando a Soda e colocando a dose de vodca. Com a cabeça dava uma geral no ambiente e dançava umas músicas ou ficava sentada olhando clipes no telão mexendo as pedras de gelo com o indicador. Numa dessas saídas, parou os olhos no cara mais interessante da noite: meio cheinho, cabelos ondulados e óculos, uns vinte e sete anos, branquinho. Tomou o último gole da vodca e encarou. Foi paixão ao último gole. Por mais que ele não tenha se detido naquela magrela loira de cabelos curtos e repicados e saltos altos, trocaram energias. Letícia recolheu seus olhos verdes quando percebeu que o rapaz estava acompanhado, uma morena o abraçou por trás. Bonita a moça. Noutro momento, perto do banheiro, Letícia de novo, ele na fila do masculino. Ela parou na sua frente e disse oi. Oi ele respondeu meio tímido com a atitude dela. Como se chama? Sérgio, ele disse e mudou o copo de uísque da mão direita para a esquerda e fez questão de dar um gole e mostrar a aliança. Bobinho, eu já vi que você está acompanhado, muito bem acompanhado por sinal, linda sua esposa. Ele não conseguia dizer mais nada. Não precisa ficar tímido, gostei de você. Só gostei, pronto. Eu também, ele disse. Letícia anderline Santinon arrôba msn ponto com até mais. Sem caras sensuais, sem molejos, sem charme, Letícia chamava a atenção pela espontaneidade, pela presença, pronto. Não trocaram mais que cinco palavras e o Sérgio estava louco pela menina das pernas longas e sorriso largo, chamou a esposa pra conversar. Olha só, estou viajando e não volto mais, talvez você não me perdoe, mas é preciso. É clichê, querido passageiro leitor, eu sei. O amor é clichê, você sabe. Ele tava no saguão de espera entre malas de rodinhas, locução de destinos para todos os cantos do mundo e barulhos de pouso. E Letícia foi buscá-lo como combinado.