16.3.09

Plano com-sequência.

Ela me desarma, me deixa com cara de bobo. Por que você é assim? Mudei as lentes da câmera, medi a iluminação e ajustei a abertura para registrar cada movimento. Era necessário pegar toda sequencia. Ela roda a maçaneta e adentra a porta vestindo uma lingerie vermelha e plumas, em cima de um salto 15 dourado. Click. Click. Click. Nenhuma maquiagem, ela não precisava, a pele alva era protegida pelo clima frio daquela cidade. Lábios rosados, olhos mel e nariz afilado, emoldurado por cabelos loiros encaracolados. Um espaço proposital entre o lábio superior e o inferior, como ela sabia fazer, assim como todas as meninas que entram em curso de modelo. Click. Click. Click. Jeito de menina-mulher que conhecia bem o meu olhar. Ela se sentia à vontade, eu sei. Eu invadia sua epiderme com meus cliques, tantos ângulos, tanto tesão. Tesão é com esse ou com zé? Não importa, eu não estava interessado em saber gramática. Se bem que ela tem cara que ensina bem o bêabá. Um ar professoral que intimida o aluno, domestica, ensina com mão à palmatória, aluno dedicado que sou, levei maçã pra tia e levei a vontade de estudar aquele corpo. Biologia. E meu sistema cardíaco estava abalado, a respiração por um triz. Eu fotografei cada pedaço do corpo hurbano dela. Os pequenos, os grandes e os médios lábios. Os médios são os do rosto, antes que você diga que só existem os pequenos e os grandes. Click. Click. Click. Ela já estava na banheira e eu nem me dei conta. Eu já estava todo suado, e a câmera clicava o teto, o chão, as paredes, numa velocidade cada vez mais frenética. Era uma mão na câmera e outra pra cima e pra baixo. Ufa, acordei segurando o jato com as duas mãos. Não consegui encontra-la mais no meu sonho.
*esse texto faz parte da série Eu te paraliso com um click. Esse da foto sou eu clicado por Lula.