23.11.09

no jardim do hospital

Que horas são por favor? não funciona, nem tão pouco você vem sempre aqui? Essa de está calor aqui não? Também não pega. Mulher gosta de ser surpreendida. Nada de arrodeios na hora de paquerar. Sente ao lado dela ou se aproxime e já pergunte sua verdura predileta. Se ela responder cenoura, por exemplo, responda com uma fruta redonda. E em seguida, elogie a boca com aparelhos e nada de falar dos olhos, que os olhos são espelhos da alma... muito subjetivo e não pega. Ouse, fale da tatuagem que ela tem no pé, que o ramalhete de flor pintado combina com aquele jardim. A partir daí ela já vai se desarmando e você pode tocar nos seus cabelos.

- você tem namorado?
- sim, ele acabou de ligar.
- mas a voz era de mulher.
- e você conseguiu ouvir?
- sim, você não tem namorado.
- tenho.
- você deveria namorar comigo.
- como assim?
- eu irei te fazer feliz, na minha casa tem devedê e tudo mais, a gente vai se divertir, eu coloco uns filmes de romance.
- eu gosto de drama.
- você ia gostar dos romances.
- mas eu tenho namorado.
- você não tem.
- tenho. Ele vem me buscar de moto.
- você é rica.
- por quê?
- porque você mora em Boa Viagem.
- qual sua verdura predileta?
- cenoura e a sua?
- melão.
- sua boca é bonita, pequena, bem branquinha.
- obrigada.
- o que você acha bonito em mim?
- os olhos.
- só?
- tudo, né?
- a gente ia pra praia e eu ia pagar tudo.
- hum.
- você vem sempre aqui no hospital?
- eu trabalho aqui. Sou enfermeira.
- ah, sou paciente. Tenho problemas mentais e físicos. Fiquei feliz por você ter achado meus olhos bonitos, ninguém nunca falou, ao contrário, têm medo de mim.

Ela mentiu pra deixar o feio feliz. Afinal, ele tinha problemas mentais e físicos e ela era uma menina boa. Ele deu o telefone e disse para ela ligar. Ela ligou e deu na caixa postal.

17.11.09

Com saudades, Lili.

Saudades. Dos bilhetes na porta da geladeira. Eu acordava horrorosa com os cabelos de pé e em dez segundos eu me sentia a mulher mais bonita do universo. E tenho certeza que Megan Fox teria inveja de mim. Saudades. De jantar com você no restaurante mais caro da cidade e não perder a simplicidade e a espontaneidade ou dividir um hot dog na rua e ser como um jantar romântico à luz de velas. Saudades. Das viagens que fizemos juntos, as mais longas, para o outro lado do mundo ou simplesmente atravessar a esquina de mãos dadas para comprar pão. Ela escreveu a carta e guardou na gaveta da penteadeira e nunca enviou.

Felipe, pai, amigo, irmão, Botelhudo,

Qualquer coisa que eu escreva aqui pode parecer clichê. Desejar toda a felicidade do mundo, por exemplo. É óbvio, que não apenas no aniversário, mas o ano todo eu desejaria isso pra você. Afinal, todo mundo merece as coisinhas boas desse mundo né? O que posso dizer, sem arrodeios, é que você é muiiiito especial, taí outro clichê. E eu tenho a sorte de ser seu amigo, contar com você, sonhar. Mais clichês. E que fodam-se os clichês. E viva você! Seu sorriso e seu abraço são os maiores presentes que qualquer ser faria questão de ganhar. Clichê. (risos). Ó, eu te amo. Tem clichê melhor? Parabéns!

Cleyton Cabral, seu filho e seu amigo.

16.11.09

Santa & Paciência (parte V)

SANTA – Ai, eu to cansada, sabe?.
PACIÊNCIA – Trabalhou muito hoje?
SANTA – Cansada dessa vidinha mais ou menos.
PACIÊNCIA – Que é que está pegando?
SANTA – Não está.... antes fosse.
PACIÊNCIA – O quê?
SANTA – Pegando. Não está.
PACIÊNCIA – Não estou entendendo nada.
SANTA – O Mauro não consegue me pegar.
PACIÊNCIA – Insatisfeita?
SANTA – Cansada. Eu queria inovar.
PACIÊNCIA – E o que está esperando?
SANTA – Ele. Está muito básico. Ele chega, tira minha roupa, eu mando ele descer, ai ele passa meia hora lá e eu já sei que em seguida ele vai enfiar e depois eu finjo orgasmo, ele esporra, fumamos um cigarro e nos calamos. Cansei. Eu canso quando já sei como é que vai ser.
PACIÊNCIA – E por que você não dar as ordens?
SANTA – Já dei até uma coisa que ele queria muito e nada se resolve.
PACIÊNCIA – Você conseguiu?
SANTA – Assim né? Fiz do jeitinho que você disse.
PACIÊNCIA – Parabéns.
SANTA – Acredito que você e o Jairo inovam.
PACIÊNCIA – Ãnram.
SANTA – Bem que podíamos sair mais juntos, vai vê o Mauro aprende um pouco com ele.
PACIÊNCIA – Ah, amiga, você sabe como o Jairo é reservado.
SANTA – Falou no diabo, apareceu...
PACIÊNCIA – O rabo. Vou entrar que o diabo quando chega a cama pega fogo.

(dois beijinhos: Mummmmmm-ráááááá, Mummmmmm-ráááááá)

13.11.09

Estreio peça amanhã!

Playdog
O Jogo de ser outro.

Três seres vagam pelo urbano. Que caminhos seguir? Na dúvida, a inércia. Inércia? Eles estão sendo e brincando, se transformando, e nos entrecruzares de estradas, vias e vidas eles são, adentrando um novo universo; parte de um jogo clownesco em que a principal refeição é o ato de ser lesado a todo instante. Cães? Palhaços? Princesas? Campeões? Mendigos? E se pudéssemos experimentar outras vidas? Se pudéssemos jogar com outras possibilidades de não tédio? No jogar de ser o outro, eles se alimentam deles mesmos. Canibalizam-se e se nutrem das experiências pertinentes aos três. Neste jogo eles invertem papéis e brincam com relações de poder e incomunicabilidade, compondo esse universo, e por vezes nos fazendo rir dele por expectativa de nonsense. O espetáculo Play Dog é fruto do Projeto O Aprendiz Encena, realizado pelo Centro Apolo-Hermilo na edição 2009. A dramaturgia é resultado da fusão de três textos: Lesados, de Rafael Martins; O Jogo da Amarelinha (quadro de Teatro Suspeito), de Carlos Bartolomeu e A Refeição, de Newton Moreno, encenados por Alisson Castro, Rafael Barreiros e Rodrigo Cunha. No elenco: Auricéia Fraga, Cleyton Cabral e Pascoal Filizola. Serviço: Teatro Hermilo Borba Filho 13 e 14 de novembro, às 20h Espero você lá!
Fotos: Val Lima.

12.11.09

sinais de fumaça

Você anda me esnobando há dois dias. Pensa que não me dei conta? Como assim? Você chega de mansinho, na malemolência e depois passa por mim e nem olha? Hoje você mudou de calçada três vezes quando me viu, como se nada tivesse acontecido antes. Cínico, indelicado! É, todos os dias depois do almoço vinha ao meu encontro, quando estava atolado de anúncios e não vinha uma idéia descia para ficar perto de mim. Só porque sou pequeno pensa que não tenho voz? Hoje eu resolvi falar: você desistiu de mim, o último da caixinha, tinha dezenove para você abandonar, mas escolheu logo a mim, pobre cigarro, abandonado pelo seu dono em plena terça-feira. Com o pretinho você continua conversando, é café pra lá é café pra cá... e eu como fico nesta história? Pensei que ia ser tragado enquanto você fizesse o número dois em casa. Você não adorava conversar comigo enquanto fazia o número dois? Ah? Eu falo mesmo para todo mundo ouvir e saber quem você é. Eu fico pegando fogo de raiva, chega sai fumaça e você nem nem, nem para prestar atenção no que estou falando. Me deixa feito um otário dentro deste cesto de lixo. Intragável é você! É a sua mãe! Okay, no meu filtro você não passa mais.

10.11.09

sobre voo

Entre malas de rodinhas, locução de destinos para todos os cantos do mundo e barulhos de pouso, Ele estava inteiro no saguão de espera. Senhores leitores passageiros, por favor, se estiverem de pé sentem-se e se estiverem sentados apertem os cintos que essa é uma história de amor turbulenta. Em caso de enjôo têm saquinhos no bolso do assento, chicletes, banheiro. Letícia era firme em todas as suas decisões. Em criança, quando queria ganhar uns trocados para comprar guloseimas conseguia sem muito esforço, quando queria tirar dez em matemática, quando queria um beijo de um menino da escola, quando queria, quando queria. Ela sempre queria. Sempre. E ela queria demais. Queria até o que tinha dono, homens casados, por exemplo. Porque para Letícia o que importava era o desejo, acima de tudo e de todos. Felicidade pra ela era um cachorro vira-lata, socos e afetos e pulgas atrás das orelhas. Formou-se em jornalismo, tinha um emprego bom, escrevia para uma revista adolescente, mora só desde os dezesseis. Gostava de iogurte de ameixa, camisinha de banana e chá de hortelã. Ouvia rock, colecionava caixas de fósforos e cuidava de um cacto que ficava na janela do quarto. Tirou férias e tirou as passagens para Recife, queria conhecer as praias do Nordeste. Na boate, o Barman já lhe conhecia, bastava ela aparecer que ele já ia pegando a Soda e colocando a dose de vodca. Com a cabeça dava uma geral no ambiente e dançava umas músicas ou ficava sentada olhando clipes no telão mexendo as pedras de gelo com o indicador. Numa dessas saídas, parou os olhos no cara mais interessante da noite: meio cheinho, cabelos ondulados e óculos, uns vinte e sete anos, branquinho. Tomou o último gole da vodca e encarou. Foi paixão ao último gole. Por mais que ele não tenha se detido naquela magrela loira de cabelos curtos e repicados e saltos altos, trocaram energias. Letícia recolheu seus olhos verdes quando percebeu que o rapaz estava acompanhado, uma morena o abraçou por trás. Bonita a moça. Noutro momento, perto do banheiro, Letícia de novo, ele na fila do masculino. Ela parou na sua frente e disse oi. Oi ele respondeu meio tímido com a atitude dela. Como se chama? Sérgio, ele disse e mudou o copo de uísque da mão direita para a esquerda e fez questão de dar um gole e mostrar a aliança. Bobinho, eu já vi que você está acompanhado, muito bem acompanhado por sinal, linda sua esposa. Ele não conseguia dizer mais nada. Não precisa ficar tímido, gostei de você. Só gostei, pronto. Eu também, ele disse. Letícia anderline Santinon arrôba msn ponto com até mais. Sem caras sensuais, sem molejos, sem charme, Letícia chamava a atenção pela espontaneidade, pela presença, pronto. Não trocaram mais que cinco palavras e o Sérgio estava louco pela menina das pernas longas e sorriso largo, chamou a esposa pra conversar. Olha só, estou viajando e não volto mais, talvez você não me perdoe, mas é preciso. É clichê, querido passageiro leitor, eu sei. O amor é clichê, você sabe. Ele tava no saguão de espera entre malas de rodinhas, locução de destinos para todos os cantos do mundo e barulhos de pouso. E Letícia foi buscá-lo como combinado.