24.4.09

Santa (&) Paciência.

SANTA – Acho suas pernas tão bonitas.
PACIÊNCIA – Ai, obrigada. As suas não são feias.
SANTA – São finas.
PACIÊNCIA – Sim, mas não são feias. Feias e finas são duas palavras completamente diferentes.
SANTA – Verdade. Mas você sempre foi assim, bonita.
PACIÊNCIA – Filha, é um corte de cabelo radical, um blashinzinho e priu, tá nova.
SANTA – Só se eu cortar minhas pernas. Não tem jeito, nem maquilagem resolve.
PACIÊNCIA – Boba. Deixe de nóias.
SANTA – E seu namorado, ele gosta de pernas grossas?
PACIÊNCIA – Anhãm.
SANTA – Você acha que uns exercícios melhora?
PACIÊNCIA – Sei lá.
SANTA – Você transa quantas vezes por semana?
PACIÊNCIA – Sete. Quer dizer, os sete dias.
SANTA – Nossa, quanta energia amiga... o Jairinho deve ser uma pilha na cama...
PACIÊNCIA – Anhãm.
SANTA – Ele chega já já né?
PACIÊNCIA – Sim sim. Tchau amiga. Vou organizar as coisas aqui. Depois a gente conversa.

(dois beijinhos: umhá, umhá)

20.4.09

Pega ladrão!

Andava sempre com a mesma camisa preta que nem era tão preta assim, já quase cinza, boné, óculos escuros, sapatos velhos e bermuda, quando não era a marinho era a de cor marron. Andava rápido, sempre muito rápido e era à noite que surpreendia suas vítimas de forma decidida:
- Passa o coração!

19.4.09

prefácio

O desejo dele era escrever uma história instigante. Dessas que lemos a orelha do livro e ficamos com a pulga atrás dela para querer saber até onde vai dar. Uma história com começo, meio e fim. Não necessariamente nesta ordem. Uma história emocionante. Com ritmo, ação, com dez personagens ou com apenas um, na primeira ou na terceira pessoa. Um lugar bonito, numa floresta, numa rua movimentada, dentro de um apartamento. Um lugar feio, um porão, uma casa sem teto e sem chão. Numa aldeia, num castelo medieval, numa praia deserta. Uma história boa. Que em cada pedacinho de vida das personagens , o leitor fique mais perto, participando, defendendo ou condenando, caminhando os olhos em cada linha como se estivesse ali. Se necessário fosse, encher as bolotas d’água. Uma história bonita. De fadas, de reis, de amizade, de amor.

17.4.09

ensaio sobre a despedida.

DEIR – Vou. Juro que volto logo.
DEVIR – Vem. Não sei se vai ser fácil não.
DEIR – É rápido. É só fechar os olhos e pronto, já voltei.
DEVIR – Quando voltar traz areinha de praia para mim.
DEIR – Claro! De todas as cores.
DEVIR – Pôxa! Como falarei contigo se lá o celular fica sem sinal?
DEIR – Eu ponho uma concha na orelha e você fala e eu te ouvirei.
DEVIR – Você me acaba com essas poesias.
DEIR – Meu vôo. Vem, me dá um abraço.
DEVIR – Voa.
DEIR – Vou.
DEVIR – Vai.
DEIR – Vou.
DEVIR – Volta.

15.4.09

o mundo dela caiu em cima do tapete.

- Oi, por favor, um chopp.
- Mais alguma coisa?
- Por enquanto o chopp. (pausa) Ah, me traz umas fichas também.
Ela escolheu três músicas da Maysa, uma atrás da outra, acendeu três cigarros e voltou para o apartamento molhada de chuva, fez um macarrão instantâneo, tomou três copos d’água e vomitou o chopp, o lámen, a água e a bili no chão da sala.

9.4.09

Vinde a mim as menininhas.

Pedrón, Pedrón! Preciso urgente de um favorzinho seu. Você precisa me salvar. O restinho de tinta que eu tinha acabou de acabar. Óh céus! Passa no Shopping Center e compra um Wellaton vermelho ultraintenso please. Preciso retocar a raiz do cabelo. Estou sem tempo, sim? Preciso fazer sessenta séries de abdominais. É, preciso definir o tórax. A Madalena está com mania de barriga de tanquinho e se eu não ficar em forma ela me troca por Judas, aí já viu né? Rapaz, comprei um re-me-di-nho, um ouro. Remédio para cavalo que deixa a barriga sequinha sequinha. É batata. Ah, e por gentileza pede para a Dona da depilação aparecer por aqui depois do BBB. E remarca a manicure para amanhã antes da yoga. Corre, Pedrón.

7.4.09

O dia em que Piaf encontrou o Tom de Vínicius.

Assim que cheguei ao Teatro neste último sábado, na fila da bilheteria uma amiga falou: “É um espetáculo para criança. O que está fazendo aqui?”. Eu respondi: “Eu trouxe a criança que existe dentro de mim para sorrir”. Ingresso na mão, eu aguardava ansiosamente, quer dizer, a criança dentro de mim aguardava a hora de brincar, pular, e por que não se encantar? E o espetáculo começou do lado de fora do Teatro Apolo. As crianças, os adultos e idosos, além das crianças dentro de cada um, foram recebidas por palhaços de todos os jeitos: grandes, pequenos, arrumados, desajeitados. Uns falavam em português, outros em francês e todos a mesma língua: a do olhar e a do coração. Cabaret Folias de Palhaço - resultado lúdico-poético do intercâmbio para troca de experiências entre 10 palhaços franceses do Le Rire Médecin e 12 brasileiros do Doutores da Alegria Recife, incluindo aí a participação de 3 palhaços de São Paulo e 1 de Belo Horizonte, além do idealizador e coordenador geral do programa aqui no Brasil, Wellington Nogueira.
Quando entramos no Teatro, fomos recebidos em serenata por uma dupla de palhaços. Fiquei encantado com a sutileza e primor com que eles faziam som, o canal de comunicação com cada um de nós da platéia estava aberto para o jogo. E logo foi entrando mais um e mais outro e mais outro. Em seguida um bando de palhaços invadiu o palco, digo uma bandinha de músicos, um mais colorido e engraçado que o outro. Tocaram. Tocaram o coração de todos. Estava feito o pacto pela alegria. A partir de então, entraram duplas e trios para jogar, a platéia ligada a 220 volts à espera por um tombo bobo, um escorregão, uma palhaçada. O elenco afinado e redondo contagiava a todos com suas peripécias. Destaque para Helene, Esthefi e Luciana Viacava.
Um dos momentos mais emocionantes foi ver/ouvir Garota de Ipanema e La vie en Rose serem cantadas/executadas pelos gringos e pelos brasileiros. Foi um carnaval cheio de cores, sabores e aromas. Eu tenho certeza que Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Édith Piaf aplaudiram de pé lá de cima. Se esses narizes vermelhos conseguem encantar a gente em uma horinha, fico imaginando as crianças dodói nos hospitais... quanto encantamento!
Digno, digníssimo, dignânimo! O encontro de palhaços franceses e brasileiros resultou em um lindo espetáculo, que pode ser visto em qualquer lugar e a qualquer hora, aqui, ali, em Jeriquaquara, Montmartre, Jacarepaguá, Vila Madalena ou Hong Kong.

Para conhecer mais sobre o programa Doutores da Alegria, acesse http://www.doutoresdaalegria.org.br/
* Palhaços clicados pelas lentes de Val Lima.

3.4.09

Ensaio sobre o fim.

Meu tempo de comédia não combina com o teu, tu és meio sem graça e eu não tenho paciência para te acompanhar. Juro que vou trabalhar isso em mim, até já venho trabalhando, mas eu desisti de ti, saca? Tu me cansas e eu não quero esperar. Eu não tenho tempo. Não tenho tempo para ti. Hora marcada só com o dentista, anestesia e pronto nem sinto dor. Gostar de ti dói. E ficar longe de ti dói menos. Pensar em ti me dá sono.

2.4.09

amor descartável.

Arrumou o quarto todo para esperar um corpo de papel.
Depois do ato, amassaram-se e pularam na lixeira.

1.4.09

Não brinca hoje, tá?

Primeiro torpedo no celular:

6h


Bom dia. Hoje eu me dei conta que não gosto mesmo de você. Acho melhor cada um ir para o seu lado, seguir o rumo da vida. Desculpa. Eu não quero te iludir, você é uma pessoa bacana e merece ser feliz. Não ao meu lado. Adeus. Daniel.

Segundo torpedo:

6h01

1º de abril. EU TE AMOOOOOOOO! =D Daniel.

Mas o segundo torpedo demorou pra chegar em seu celular e Rayanne havia se jogado na linha do trem das seis e cinco.