29.1.09

Indigesto

Depois do almoço eu te comi de sobremesa, porque o pavê de sonho de valsa estava na minha boca, mas era em você que eu pensava. Passei a língua na borda da tigela e fui circulando, quando completei o círculo te devorei com fome de leão, como formiga em açúcar. Depois enjoei do teu doce, acendi um cigarro e te esqueci.

28.1.09

Das vontades

gritar dentro da tua boca com toda minha força e remexer tudo (se esse coração ainda reage). navegar contra a tua corrente sanguínea (se o sangue que corre lá leva meu nome). esticar tua pele (se ela ainda guarda meu cheiro). soprar tua alma (se ela dança uma valsa ou um tango argentino).

23.1.09

O louco da gaiola

Sabe Deus o que aquele garoto fazia com aquela gaiola cheia de papeizinhos dentro. Ele era alvo de chacota por seus colegas da vizinhança. Chamavam-no de louco, negrinho e tantos outros inhos. Ele não revidava. Apenas levava a gaiola para onde ia. Na escola era a mesma coisa, mas ele voltava pra casa com a gaiola branca de tantos papeizinhos e guardava em seu quarto. Perto da hora de dormir, ele apagava a luz e acendia uma lanterna e tirava os papéis um a um, pondo luz em cima para ler. Depois ele guardava os bilhetinhos de volta na gaiola, pedurava-a na janela e pegava no sono como um anjo. Acordava e a gaiola já estava vazia. Só uma garota sabia explicar aquela história: ele perguntava os sonhos das pessoas que passavam por ele, anotava num papel e colocava na gaiola. Antes de dormir, abria a portinha para os sonhos voarem.

21.1.09

poema sinestésico

Li cores em você
que tinha um sabor
que não sei de cor.
Meio azedo e meio doce.
Cítrico, cínico e hostil.

9.1.09

Dos acordos ortográficos.

Por que não tiraram o acento do hífen?

De: Para:

Para! Para de me olhar assim querendo entrar nos meus olhos. Olha pra tevê, para o chopp ou para o prato. Para! Assim você me deixa sem graça. Não vê que é um tanto difícil para mm? Para! Deixa o limite da mesa nos separar, é perigoso o seu toque na minha pele quente. Para! E esses convites sei não, você sabe que o escuro sugere o encontro das mãos. Para!

7.1.09

Ora porra!

Ele soltava porra no ar e você engolia sem reclamar. Sem dizer uma palavra, um pio, um ai, ui, porra nenhuma. Você gostava daquela porra na cara, e merecia, mesmo com vontade de chorar, a porra explodia veemente.

5.1.09

Das curiosidades

Por que as pessoas vestem branco no reveillón?
Por que cerveja engorda?
Por que beijar é bom?
Por que a centopéia é chamada de centopéia se ela possui entre 15 e 191 pares de pernas, o número de pares é sempre ímpar e por isso nenhum tem exatamente 100?