21.12.08

Cores de Frida Kahlo, cores.


"Minha pintura carrega em si a mensagem da dor. Creio que ela interessa pelo menos a algumas pessoas".

Ontem no Teatro Capiba, na Mostra SESC de Teatro, tive o prazer de ver Matizes de Frida Kahlo - um palco-tela emoldurado de verdade cênica. Em cena, ou melhor, no quadro, dois jovens atores (Cláudio Malaquias e João Paulo Ferreira) pintando a vida e a obra de Frida Kahlo, pintora mexicana de forte personalidade, uma mulher à frente do seu tempo, que pintava sobretudo auto-retratos e, pela qualidade de seus traços, foi classificada surrealista por André Breton. "Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade".

Frida teve uma vida marcada por grandes tragédias: aos seis anos contraiu poliomielite, o que a deixou coxa, aos dezoito o ônibus que ela viajava chocou-se com um bonde, acarretando múltiplas fraturas e uma barra de ferro atravessou-a entrando pela bacia e saindo pela vagina. Ela passou o maior tempo de sua vida em cima de uma cama se recuperando, entre cirurgias e mais cirurgias. Sua mãe pendurou um espelho em cima da sua cama e era ali que ela pintava suas dores, adicionando as cores do folclore mexicano, cores fortes da sua cultura. Para expressar sua realidade, Frida buscava inspiração na dimensão brutal da sua dor. “Eu pinto-me a mim porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”. Frida contraiu pneumonia e morreu em 1954 de embolia pulmonar. “Espero alegremente a saída e espero nunca mais voltar - Frida”. Talvez ela não suportasse mais.

Confesso que no início do espetáculo, quando vi Cláudio com roupas femininas, salto alto e lábios encarnados tive medo. Medo de que ele caísse no ridículo, numa interpretação afetada, falseando uma voz e posturas femininas, já que possui traços altamente masculinos. Levei uma rasteira. Cláudio me encantava a cada momento, com uma sutileza no olhar, nos gestos limpos, no caminhar. Sem exageros, sem afinar a voz, sem imitar uma mulher. Assim também seu companheiro de cena, João Paulo, ator iniciante com presença de veterano. João pesquisa Frida há alguns anos e é multiartista: pintor, ator, escritor e diretor. Tudo isso sem nenhuma formação técnica, por puro prazer e busca. Ele tem um futuro brilhante: belo e com vontade de acertar.

A interpretação é o destaque da encenação. Uma interpretação não-dramática, estranhada, assemelhando-se a uma não-interpretação, onde se vê o ator em cena “representando” uma persona, seu ponto de vista. Sem sentimentalismo, sem psicologismo. A força da palavra estava no próprio texto, que eram frases da pintora, os escritos achados nos seus diários e um roteiro de seu espaço-tempo. O texto chegava à platéia sem exageros. A música no ponto: as canções populares do México e outras partituras acentuavam cada cena. O cenário realista-naturalista: a cama-leito, duas cadeiras de madeira, uma mesinha e telas. Outro ponto importante é a sintonia entre os dois atores, eles se olhavam, trocavam, contracenavam de fato. Cláudio, a Frida mexicana; João, a européia. A dualidade da pintora. Frida mulher, Frida homem, Frida bissexual. Frida artista, Frida esposa, Frida estéril. Frida em todas suas cores.