26.12.08

Natal

Ele decidiu não desejar “Feliz Natal” a Seo ninguém, porque era tudo muito fake. Ele decidiu tomar uma meia dúzia de cervejas com o chefe e o colega de trabalho e tomar o ônibus rumo ao Lar Meu Querido Lar. Dentro do coletivo Ele apreciou os afetos de uma mãe jovem com uma criança nos braços, entre sacolas e um ventilador de chão. Ela possivelmente levava o calor humano, o filho e o ventilador para passar um Natal mais fresco. Ela se olhava no reflexo das janelas de vidro, a cor nova do cabelo, loiro-médio-alguma-coisa e estava feliz. Ele acenou para o cobrador, pois seu Allstar branco, nem tão branco assim, ficara preso na porta do meio. O sapato apertou para Ele realmente pensar no real significado no Natal e cochilou até a próxima parada. Abriu a porta de casa, tomou um banho, vestiu a camisa nova e dormiu no sofá, enquanto Xuxa tentava ser atriz num programa da TV. Ele se levantou, comeu alguma coisa com batatas e camarão, tomou duas cocas e voltou a dormir. Então foi Natal, um dia qualquer, como hoje, como semana que vem, como há seis meses.

24.12.08

21.12.08

Cores de Frida Kahlo, cores.


"Minha pintura carrega em si a mensagem da dor. Creio que ela interessa pelo menos a algumas pessoas".

Ontem no Teatro Capiba, na Mostra SESC de Teatro, tive o prazer de ver Matizes de Frida Kahlo - um palco-tela emoldurado de verdade cênica. Em cena, ou melhor, no quadro, dois jovens atores (Cláudio Malaquias e João Paulo Ferreira) pintando a vida e a obra de Frida Kahlo, pintora mexicana de forte personalidade, uma mulher à frente do seu tempo, que pintava sobretudo auto-retratos e, pela qualidade de seus traços, foi classificada surrealista por André Breton. "Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade".

Frida teve uma vida marcada por grandes tragédias: aos seis anos contraiu poliomielite, o que a deixou coxa, aos dezoito o ônibus que ela viajava chocou-se com um bonde, acarretando múltiplas fraturas e uma barra de ferro atravessou-a entrando pela bacia e saindo pela vagina. Ela passou o maior tempo de sua vida em cima de uma cama se recuperando, entre cirurgias e mais cirurgias. Sua mãe pendurou um espelho em cima da sua cama e era ali que ela pintava suas dores, adicionando as cores do folclore mexicano, cores fortes da sua cultura. Para expressar sua realidade, Frida buscava inspiração na dimensão brutal da sua dor. “Eu pinto-me a mim porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”. Frida contraiu pneumonia e morreu em 1954 de embolia pulmonar. “Espero alegremente a saída e espero nunca mais voltar - Frida”. Talvez ela não suportasse mais.

Confesso que no início do espetáculo, quando vi Cláudio com roupas femininas, salto alto e lábios encarnados tive medo. Medo de que ele caísse no ridículo, numa interpretação afetada, falseando uma voz e posturas femininas, já que possui traços altamente masculinos. Levei uma rasteira. Cláudio me encantava a cada momento, com uma sutileza no olhar, nos gestos limpos, no caminhar. Sem exageros, sem afinar a voz, sem imitar uma mulher. Assim também seu companheiro de cena, João Paulo, ator iniciante com presença de veterano. João pesquisa Frida há alguns anos e é multiartista: pintor, ator, escritor e diretor. Tudo isso sem nenhuma formação técnica, por puro prazer e busca. Ele tem um futuro brilhante: belo e com vontade de acertar.

A interpretação é o destaque da encenação. Uma interpretação não-dramática, estranhada, assemelhando-se a uma não-interpretação, onde se vê o ator em cena “representando” uma persona, seu ponto de vista. Sem sentimentalismo, sem psicologismo. A força da palavra estava no próprio texto, que eram frases da pintora, os escritos achados nos seus diários e um roteiro de seu espaço-tempo. O texto chegava à platéia sem exageros. A música no ponto: as canções populares do México e outras partituras acentuavam cada cena. O cenário realista-naturalista: a cama-leito, duas cadeiras de madeira, uma mesinha e telas. Outro ponto importante é a sintonia entre os dois atores, eles se olhavam, trocavam, contracenavam de fato. Cláudio, a Frida mexicana; João, a européia. A dualidade da pintora. Frida mulher, Frida homem, Frida bissexual. Frida artista, Frida esposa, Frida estéril. Frida em todas suas cores.

18.12.08

das defesas.

- Papai, papai, nesse natal eu quero uma arma do Samurai.
- Não meu filho, nada de arma.
- Então eu quero um escudo.

12.12.08

O homem é realmente livre?


15h. Era um domingo de maio. No Parque da Jaqueira as crianças brincavam, os adultos caminhavam ou faziam ginástica e o velho dormia num banco. Todos gozavam da liberdade até eu fazer o clique. Eu roubei a liberdade do velhinho e ele acordou com o barulho do disparo. Do flash, é claro. Mas eu queria registrar aquele silêncio em meio à agitação do Parque. Havia poesia naquele repouso. Era contrastante com todo o movimento do espaço, com o movimento da minha lente e com o movimento do meu corpo, onde tive que fazer uma “ginástica” para conseguir captar sua imagem por entre as brechas do banco. Por trás daquele semblante tinha um misto de alegria e tristeza.

10.12.08

Na mídia, na moda e na merda.

É dezembro. O mês em que as academias de ginásticas estão superlotadas e coisa e tal. Os boyzinhos já estão “puxando ferro” para tirar a camisa no carnaval e exibir seus monstruosos bíceps, tríceps, costas extralargas, barrigas de tanquinho e na maioria das vezes, as pernas finas e nenhum músculo na cabeça. Sim, porque o objetivo é “tirar a camisa” na folia e colecionar bocas, quanto mais bocas, melhor. Não se trata de qualidade, e sim, o saldo no fim do dia: beijei 25, beijei 12... e acaba transformando muitos sapos em princesas e vice-versa. Além da probabilidade de pegar muitos sapinhos. Ueber!
Conversando com meu dupla aqui da agência, chegamos a conclusão de que muitas meninas da nossa idade curtem isso mesmo: músculos. Que elas estão mais preocupadas em “estar na mídia” – acompanhadas de seus brotossauros na balada. Outra palavrinha mágica em seus mundos: balada. Porque a tendência do momento é saber qual a balada da noite, essas coisas. E a qualidade cada vez mais se perde, e as chances de ter um guarda-roupa mudo é bem grande. Não botando pra fudê no meu time mas que é vergonhoso é. Os caras só malham o corpo porra, vão ler um livro, nem que seja o zodíaco, para pelo menos ter o que discutir com a gatinha no barzinho. E pode até apimentar uma paquera: qual seu signo? Touro? Nossa gatinha, sou escorpião com ascendente em touro, não que eu acredite em signos, mas róla umas energias cósmicas e tal e coisa. Muitos não querem ter o que conversar e acabam ficando na “mídia, na moda e na merda”, como diz uma amiga da faculdade.

4.12.08

fluxo

É tudo muito estranho e doce. Depois de algumas decepções, um bocado de orgulho e egoísmo, você ainda acredita que pode ser bom. Escrevo, não para ser entendido, mas para que minhas palavras cheguem do outro lado do rio, depois da cerquinha com as vacas malhadas e os latidos de um cão sem plumas. Se é que me entendem. Não procurem entender-me. Então, essa coisa de se permitir é muito séria e tal. E distância é coisa muito séria também, sofro com ela. É como um "não" quando você quer um "sim". É a cara quando lhe roubam um brinquedo. É lacuna, folha em branco, calabouço. Não sei por que escrevo tudo isso, eu estou bem. Calma. Minha vida não é um tédio e me sinto como se estivesse brincando na rua descalço e todo molhado de suor, um menino que se alegra com algumas moedas e um monte de balas, doces. Estou feliz, sorriso na orelha e uma enorme vontade de te ver. Ver-te. Ter-te. E sonharmos nossos sonhos juntos. E de mãos dadas cumprimentarmos a lua cheia, vazia, nova, velha e minguante. Estar. Ser. E flexionar o verbo amar. É isso.