15.5.08

O Porco

“Quando a gente quer, quando a gente quer, a gente faz” – falou olhando nos meus olhos depois de um forte abraço, aquele homem simples e com aspecto de miúdo e frágil, que me encantou com um par de meias vermelhas e um sorriso que vinha do lado de dentro. Emocionei-me com a sutileza e simplicidade com que guiou o espetáculo “O porco”, adaptação do texto de Raymond Cousse, apresentado ontem no Teatro Hermilo Borba Filho, pelo Festival Palco Giratório. Fica para trás o aspecto de miúdo e frágil quando se pára para ouvir Antonio Januzelli. E depois de ter visto o lindo “porco” do ator Henrique Schafer, saí do Teatro transf(t)ornado com aquele universo rico em dramaticidade, inércia e dinâmica, aquela luz cortada que sugere caminhos a seguir com possibilidades de desviar, recuar ou simplesmente seguir, mesmo que seja xeque-mate, porque no espetáculo para mim, o Rei é o porco e não o porqueiro. A ausência de sonoplastia (e é necessária?)... a música do corpo de Henrique por si só grita, emudece, dialoga com o espaço (quadrado), com os espectadores, com o cosmos.
É de uma verdade cênica absurda e real e simples. Você entra no jogo (cerca) e enxerga o porco no homem e vice-e-versa, sem precisar ver o porco gruindo ou o ator “animalizando” o bicho. No mínimo, em alguns momentos, Henrique usa as mãos, que desenha as patas do animal. E só, o resto é trabalho físico, entrega, espírito, presença.
Evoé!

Sinopse: O monólogo retrata um porco que relembra momentos de sua existência. Na reconstituição de sua trajetória, fala de seus antepassados, sua família, sua condição social e seus desejos. Não há metáforas. O que se ouve é o que se fala, ainda que prevaleça um jogo entre o que se expressa e o que se sente. Um jogo que se traduz em um passeio pelo “porão animal do homem a caminho do abate”.

4 comentários:

Marcela Tenório disse...

Rapaz é impresionante como uma pessoa das artes fala bem das artes. :) Se brincar o teu comentário é melhor que e peça em si. De toda forma ela é no mínimo inusitada né? Original. E estamos precisando disso, e como.

Cleyton disse...

Obrigado, chefa. É lindo o espetáculo. =D

Felipe disse...

Excelente comentário, Cleyton. Depois de ler suas palavras, fiquei ainda mais chateado por não ter ido assistir.
Concordo com Marcela: sabes falar muito bem dessa nossa arte teatral.
Abração
P.S.: Valeu a favoritação filhão eheheheh.

Vanessa Campos disse...

Pois é, eu vi o espetáculo duas vezes, uma na Mostra Sesc Cariri das Artes, estava a trabalho e fiquei impressionada com o texto e o ator. A segunda vez, Festival Palco Giratório há pouco mais de um mês, fiquei prestando mais atenção no ator, no gestual e na construção. Nem é tanto do porco que ele fala, não é?