29.5.08

a-a-a-a-a-a-tchim!

O homem suspendeu a mão no ar, em frente ao rosto e ficou. Isso me chamou a atenção, porque pensei que ele fosse espirrar. Esperei para ver. Deveria ser um estrondo. Daí, ele pressionou os dedos polegar e indicador da mão direita sobre os olhos. Pensei: ele não está se sentindo bem, e estava num cruzamento, pronto para atravessar, isso poderia ser muito perigoso. Cheguei perto do cara. Você quer ajuda? Aí ele já estava chorando, as lágrimas caindo como numa cachoeira. Ele: não, obrigado. É só conjuntivite, vou comprar remédio ali no Bompreço. Fiquei preocupado, juro. Pensei até que ele poderia se jogar na frente de um carro, porque conjuntivite não era não. Uma garota que esperava atravessar a via percebeu o lance e soltou: se não foi gaia, foi demitido do trabalho. Vai saber.

22.5.08

Queremos novos Teatros! E espaços com boas condições técnicas!

Ontem matei mais uma aula para ver Besouro-Mangagá morrer de morte matada. Foi esse o mote do espetáculo “Besouro Cordão de Ouro” do Rio de Janeiro pelo Festival Palco Giratório, no Teatro Armazém 14. O Musical conta e mostra a trajetória, filosofia, prática e música do capoeirista baiano, Manuel Henrique Pereira, o Besouro Cordão-de-Ouro ou o Besouro-Mangagá. Mais que isso: o espetáculo representa um pouco da história do Brasil, da nossa formação cultural na música, na dança e no ritual.
Assim que entramos no Teatro fomos recebidos pelos atores-personagens para “beber o morto”, ofereceram uma lapada de cana no velório de Besouro, em sua homenagem. (atenção especial ao trabalho de Iléa Ferraz, atriz de extrema presença cênica e concentração).
A peça começa com a morte e vai ganhando vida quando Iléa pega uma miniatura de navio em cima do caixão e “navega” pelo ar, como que chorando a morte de besouro, onde as lágrimas são as águas dos mares, águas salgadas da Bahia. E somos levados nessa “onda” para outro espaço: um círculo repleto de caixotes de madeira, painéis com versos das músicas, instrumentos percussivos, e homens e mulheres do povo. E aí começa com a fala de Marcelo Capobiango (ator de voz macia) acerca de Besouro e suas artimanhas. Chove. Mas chove mesmo, não é cena não. E os atores contam a história de Besouro. A chuva continua, goteira no palco e nas cabeças dos espectadores. A produção do festival e do espetáculo pede desculpas à platéia e resolvem parar - Porque os atores não podiam correr riscos, já que eles iriam dançar e jogar capoeira. Enquanto a produção falava os atores permaneciam imóveis, mas concentrados nas personagens. O linóleo (espécie de tapete em material vinílico para apresentações de dança) já estava todo molhado. Stop. Esperaria quinze minutos para enxugar o linóleo, e caso não voltasse a chover retomaria a peça de onde parou. Os atores saíram de cena em fila, arrasados, via-se no rosto. Chegou-se a ouvir o murmúrio “surreal, surreal” de uma das atrizes. Logo voltaram com a mesma força e encanto. A chuva não voltou... capoeira, músicas, alegria, festa. Em determinados momentos eu me senti em Salvador, no largo do pelourinho ou na calçada da igreja de São Pedro. Foi lindo! Mas continuo com o sentimento de indignação em relação ao poder público, que não investe o necessário em Cultura... a pobreza por espaços dignos de mostrar nossa arte.

21.5.08

Ensaio sobre o vício
Entre um job e outro, a designer Anne Cavalcanti é pega usando pó, Avon.

16.5.08

histórias de amor e outras histórias

Ontem quando saí da faculdade, detive-me em observar o relacionamento de alguns casais. Logo na Praça do Derby um homem com cara de homem casado estava sentado num daqueles bancos que dezenas de pessoas usam para se encontrar, namorar e outras coisitas mais. É, porque róla muitas outras coisas. Em alguns momentos são camas, porque deitam pessoas que não têm teto e, casais que têm tetos, mas preferem fazer sexo ou as preliminares lá. Voltando para o homem com cara de homem casado. Ele sentado, e uma mulher com fartos seios numa blusa preta decotadíssima, os seios quase pulando, em sua frente. E para não cair, o homem fazia sua parte, apalpava-os com as mãos como se não tivesse ninguém por ali. Afinal de contas, a praça é pública. E já que é pública, era visível a vontade dele de abocanhar aqueles seios que mais pareciam balões de carne, churrasco mal passado para ele. E para quem passava por lá.
No ponto de ônibus, um homem esperava alguém, talvez sua esposa, já que ele tinha uma aliança que mais parecia um pneu dourado na mão esquerda. Dito e feito: logo em seguida um carro escuro para rente ao meio fio. Ele entra, o sinal fica vermelho, ele bota o cinto e beija a testa da motorista.
Ainda no ponto de ônibus, porque meu ônibus teimava em demorar, outro casal, Ele, um broto, “brotossauro”, cara e corpo de segurança, braços anabolizados com barriga de chopp. Ela, negra, uns trinta e cinco anos, com jaqueta jeans, o tempo estava neblinoso, cara de solteirona com um caderno nas mãos, ganhou um relógio usado dele para presentear alguém, supostamente seu pai, o relógio era masculino, e ele mostrava todas as funções à ela, alarme, lanterna, cronômetro. Mas havia uma certa distância neles dois, Ele parecia ser casado também. Ela pediu um beijo dele, Ele o fez em forma de selo, Ela idealizando, querendo estar mais perto, Ele atencioso no mesmo lugar, firme como na profissão de segurança, Ela falava da dificuldade que está enfrentando na escola, que não entendia patavina o que os professores diziam, Ele ouvia com o olhar, e dizia que era assim mesmo.
Meu ônibus chegou. E a vida continua com seus encontros e desencontros, amores e desamores, ilusões, desejos, vontade de estar junto.

15.5.08

O Porco

“Quando a gente quer, quando a gente quer, a gente faz” – falou olhando nos meus olhos depois de um forte abraço, aquele homem simples e com aspecto de miúdo e frágil, que me encantou com um par de meias vermelhas e um sorriso que vinha do lado de dentro. Emocionei-me com a sutileza e simplicidade com que guiou o espetáculo “O porco”, adaptação do texto de Raymond Cousse, apresentado ontem no Teatro Hermilo Borba Filho, pelo Festival Palco Giratório. Fica para trás o aspecto de miúdo e frágil quando se pára para ouvir Antonio Januzelli. E depois de ter visto o lindo “porco” do ator Henrique Schafer, saí do Teatro transf(t)ornado com aquele universo rico em dramaticidade, inércia e dinâmica, aquela luz cortada que sugere caminhos a seguir com possibilidades de desviar, recuar ou simplesmente seguir, mesmo que seja xeque-mate, porque no espetáculo para mim, o Rei é o porco e não o porqueiro. A ausência de sonoplastia (e é necessária?)... a música do corpo de Henrique por si só grita, emudece, dialoga com o espaço (quadrado), com os espectadores, com o cosmos.
É de uma verdade cênica absurda e real e simples. Você entra no jogo (cerca) e enxerga o porco no homem e vice-e-versa, sem precisar ver o porco gruindo ou o ator “animalizando” o bicho. No mínimo, em alguns momentos, Henrique usa as mãos, que desenha as patas do animal. E só, o resto é trabalho físico, entrega, espírito, presença.
Evoé!

Sinopse: O monólogo retrata um porco que relembra momentos de sua existência. Na reconstituição de sua trajetória, fala de seus antepassados, sua família, sua condição social e seus desejos. Não há metáforas. O que se ouve é o que se fala, ainda que prevaleça um jogo entre o que se expressa e o que se sente. Um jogo que se traduz em um passeio pelo “porão animal do homem a caminho do abate”.

14.5.08

ENSAIO SOBRE A GUERRA

jogar lixo na casa do vizinho e vice-e-versa.

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

arquiteto renomado arquiteta a própria morte.

ENSAIO SOBRE A FALTA DE AMOR AO PRÓXIMO

jogar uma criança de seis anos pela janela como quem joga cinzas do cigarro.

ENSAIO SOBRE A FALTA DE AMOR-PRÓPRIO

tomar chumbinho como quem toma um iogurte. e geralmente acabam tomando no.

ENSAIO SOBRE A SOLIDARIEDADE

órgãos de crianças são exportados sem frete. doados ou doídos?

ENSAIO SOBRE O ABANDONO

mulher da periferia larga marido e filhos para morar com italiano numa casinha de papelão.

ENSAIO SOBRE A SOLIDÃO

mulher veste prada, usa lou lou e tranca-se em casa.

ENSAIO SOBRE A VIOLÊNCIA

o homem põe o revólver na sua cara, leva seu carro e ainda oferece balas. e você torce que seja halls.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

um deficiente visual se aproveita da ajuda de uma loira gostosa: - nuntôvenunadaa.

13.5.08

ENSAIO SOBRE A FOME

criança come o seio da mãe em praça pública.

Hoje eu poderia ser professor de ciências, dentista, ortopedista, psicólogo ou repórter.

Hoje eu poderia ser professor de ciências, dentista, ortopedista, psicólogo ou repórter. É que em criança eu dizia que ia ser professor de ciências, porque adorava estudar o corpo humano, sistema ósseo, circulatório, respiratório, essas coisas. Também queria ser dentista, achava bonito quem tinha essa profissão. Engraçado, na primeira vez que fui ao dentista, enquanto esperava chamar meu nome na sala de espera, ouvi o barulho da broca e uma criança chorando, corri desesperadamente pra casa e deixei meu irmão mais velho lá. Minha adoração por estudar os ossos na escola, me fez querer ser ortopedista (na verdade, eu já quebrei o pé três vezes, e achava o máximo o processo de colocar o gesso). Sempre gostei de falar em público, e com isso dizia que queria ser repórter, mas as experiências do discurso no microfone foram na formatura do ABC, na primeira comunhão etc. (sempre era escolhido para ser o orador). Até já fui repórter, mas numa peça de Teatro. E também já fui dentista, noutra peça. E nessa confusão toda de não saber ao certo o que escolher ser quando crescer, fui me inscrever no vestibular de psicologia. Desisti no caminho. E no próximo vestibular, me inscrevi para Publicidade. Foi aí que percebi que era isso mesmo o que eu sabia fazer: escrever, falar, persuadir, comunicar. A imaginação, o lúdico, as metáforas, o uso da palavra sempre me acompanharam e hoje só me enxergo como redator publicitário. Poderia ser um excelente professor de ciências, um dentista competente e que não põe medo nas crianças, um ortopedista de primeira, um psicólogo de sucesso ou um repórter de voz forte, mas tenho um caso de amor com as palavras. Por isso escolhi ser redator publicitário. Sou homem de palavra. E palavras.
O CASO ISABELLA POR UMA CRIANÇA DE SEIS ANOS QUE OUVE RÁDIO AM ou
A IMPORTÂNCIA DA PONTUAÇÃO NUMA FRASE:


“O caso Isabella é a menina que morreu o pai dela jogou ela da janela com a madrasta”.

Pedro Henrique, meu sobrinho de 6 anos.