9.2.10

Poema com shoyo

Para caber no teu sorriso
não é preciso muito esforço,
basta olhar firme para essa
sua cara de quem não sabe
comer sushi no palitinho.

5.2.10

O amor em doses cavalais

Hoje postei aqui: www.blogdas30pessoas.blogspot.com

2.2.10

amém

Nooooossa, Deus é O Cara. Aquela barba por fazer, os cabelos bagunçados, o dragão no braço direito, o piercing no mamilo esquerdo (deu pra sentir por cima daquela t-shirt descolada), o jeans surrado, o All Star vermelho bufento e a lata de cerveja na mão. Incrível! Ele dançando cheio de charme. Uma beleza bíblica. Deus fumando um baseado e eu apóstola, apostando naquelas mãos grandes que desenhava no ar o ritmo do rock indie que saia da guitarra da banda de garagem. Eu querendo seguir seus passos, subir no alto da montanha, ouvir seu sermão, como boa samaritana. E ele masclando um Trident, fumando um careta e dizendo vinde a mim menininha. Chama-me de putinha. Nada de Madalena, eu quero que me chame de puta. Deus, você é the Cara e seria um milagre poder dormir contigo, ser tua cruz de frente.

1.2.10

o olho que vê, sente, ouve e abraça.

A partir de agora vou conversar com você olhando para os seus pés. Não me leve a mal. É que quando você me olha com esses olhos de contemplação eu fico refém desses doces olhos. Seus olhos são duas luas cheias refletindo na lâmina noturna do mar. E como se deixar banhar por esses olhos a quem me incita mergulhar rasante, passeando por suas íris, dilatando suas pupilas e me afogaando de desejo?

31.1.10

possibilidades medianas

Amor, hoje é o meu dia, você fica com a Clarinha, já que não confia com quem deixá-la. Para Célio era assim: família com criança, como no caso dele, deveria priorizar os cuidados já que hoje não há de confiar nas babás e em ninguém, afinal o mundo está cheio de malucos. Um dia ele se diverte com os amigos, outro dia ela se diverte com as amigas, mas um tem que ficar em casa com a criança. Hoje é sexta e ele quer tomar umas cervejas com os colegas do trabalho. Simone fica em casa com Clarinha. Simone tem ficado em casa desde que a pequena nasceu. Célio deixou claro: trabalhamos no comércio, emprego mediano, e como as mensalidades de hotelzinhos para crianças são caríssimas, é o mesmo que trocar o salário, você fica em casa, eu trabalho okey? Um médico jamais deixaria o emprego para cuidar de um filho, mas devemos admitir que nosso emprego é uma bosta. Simone não ficou com raiva, ela entendeu perfeitamente que Célio se preocupava com a filha, era um bom pai. Célio trabalhava, fazia feira, dava de um tudo em casa, mas mesmo assim, Simone continuava desconfiando que estava sendo traída pelo pai de Clara.

28.1.10

amar_esia

Você levou a sério a brincadeira na praia e em vez de castelo você foi me sufocando com a areia. Enterrando-me vivo. Primeiro cobriu meus pés, depois as pernas, o sexo, o tórax... não se mexa, fica quietinho que já está acabando, você disse com sua voz doce. Os braços, o pescoço e só com a cabeça de fora, radiante, pois era você quem brincava comigo e depois o mar iria me despir a roupa de areia. Mas você foi embora e a água com sal não veio.

27.1.10

SANTA & PACIÊNCIA VI

SANTA – Amiga, estava louca para falar contigo.
PACIÊNCIA – Conseguiu fazer as posições do Kama Sutra.
SANTA – Não. Não é isso, amiga.
PACIÊNCIA – E o que é então?
SANTA – É uma curiosidade. Assim, passei em frente a uma banca de revista e uma matéria de capa chamou minha atenção: É DOS CARECAS QUE ELAS GOSTAM MAIS. Truques e Segredos para arrasar na cama.
PACIÊNCIA – Isso tudo é o nome da revista?
SANTA – Não, o nome da revista é A ARTE DE TER TESÃO.
PACIÊNCIA – Ah, tá. E qual é a curiosidade?
SANTA – Então amiga, comprei a revista e fiquei encantada com a matéria que falava que os carecas têm ereção prolongada.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E que queria saber se é verdade, afinal o Jairo, seu namorado, é careca.
PACIÊNCIA – E?
SANTA – E ele demora mesmo com o pinto duro?
PACIÊNCIA – Sim, muito.
SANTA – É que o Mauro é assim: eu abaixo a calcinha e ele já fica quase gozando. Tão difícil. Queria outras experiências... e agora estou curiosa para encontrar um careca.
PACIÊNCIA – Sei.
SANTA – Assim, é que queria matar essa curiosidade com você... Olha quem vem por ali, o Jairo. Ele sempre chega a essa hora, não é?
PACIÊNCIA – Acertou. Tchau amiga, depois a gente conversa mais.
PACIÊNCIA – Ah tá, tchau.

(dois beijinhos: Mummmmmm-ráááááá, Mummmmmm-ráááááá)

26.1.10

garimpo

Vou
cavando
cavando
cavando até
encontrar você
sem armaduras e cordão
de isolamento, fazendo buracos
em tua alma, procurando pepitas,
trepidando com minhas mãos, vacilantes.

25.1.10

Classificados

Vende-se 01 bicicleta azul com 10 anos de uso, pneus carecas, bagageiro com espaço para mais um, sela ressecada pelo sol. A mesma já viajou por lugares lindos e feios, de jardins da infância a matagais da adulteza.

Vende-se 50 bolas de gudes, brilhantes, coloridas e de todos os tamanhos. Bolinhas colocadas no chapéu por crianças que moram na rua e não tinham moedas para ajudar um ator que se apresentou naquela praça.

Vende-se este espaço.

Só não se vende o sorriso nem o coração. Estes, você pode pedir que a gente encaminha sem cobrar frete.

22.1.10

Viciado em poesia

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra e ele resolveu fumar.

19.1.10

Deixe seu recado

Oi, no momento não posso atender, deixe seu recado após o sinal que em breve retornarei, disse a secretária eletrônica com voz de me coma de quatro. Eu não deixei nenhum recado, continuei mudo segurando o telefone na orelha. É tão engraçado, a gente para no tempo e fica viajando sem mala e sem avião, o passaporte era o telefone, pus no gancho e entrei no carro. Apenas uma luz acesa naquele edificiozão. O apartamento dela iluminado, as janelas abertas e apenas uma secretária lá dentro, eletrônica. Só pode ser uma patologia, só pode. Vou contar um segredo porque sou seu amigo e confio em você: tenho fixação pela secretária eletrônica. Eu sei que é a Vanessa, mas aquela voz, aquela voz parecia ser de outra pessoa. Eu ligava mais de trinta vezes por dia só para poder ouvir ela dizendo oi, no momento não posso atender, deixe seu recado após o sinal que em breve retornarei. Obsessão, pode dizer. É bom ouvi-la e não dizer nada, não deixar meu rastro, seria uma traição. E trair a Vanessa com sua própria voz! Eu tenho coragem de tudo, me jogar de um abismo, matar uma pessoa, fazer sexo com um cadáver, tudo, menos traí-la. Ainda mais com a secretária eletrônica, a quem tenho uma admiração enorme. Justiça seja feita, Vanessa não merece e eu seria muito filhadaputa se eu comesse a sua própria voz. Mas que tenho o maior tezão, ah eu tenho.

18.1.10

presentinho

Ele entrou segurando o pacote enrolado em papel de presente, acendeu a luz da sala, ligou a tevê e seguiu em direção ao quarto, que parecia o Pólo Norte com o ar condicionado no máximo. Ela já estava de camisola e lia um romance italiano com as pernas apoiadas por uma almofada. Ele disse boa noite, benzinho e beijou-lhe a cabeça tirando os sapatos. Ela respondeu e no momento do beijo comprimiu os olhos e fechou o livro marcando a página com o dedo. Ele estendeu o braço com o pacote. O que é isso?, ela perguntou surpresa. Abra, ele disse, acho que você vai gostar. Ela deixou o livro de lado e abriu o presente com cuidado para não rasgar o papel colorido. Sem muita felicidade ela pergunta, uma bolsa? Ele disse sim com a cabeça, Não gostou?, insistiu. Gostei, ela disse querendo dizer não e guardou o presente no guarda-roupa. Mário tomou um banho e foi ver televisão na sala. Ângela foi ao guarda-roupa novamente conferir o presente. Meu Deus, que bolsa ridícula! Nunca vi objeto mais folclórico, se eu colocar na rua é capaz de pensarem que é um caboclo de lança, uma apresentação de maracatu ou algum despacho. Mário, vamos conversar?, disse invadindo a sala às três da madrugada. Oi, amorzinho, o que foi que aconteceu? Eu só gostaria de saber se esse presente que você trouxe era para mim mesmo, ela perguntou olhando nos olhos dele. Sim, môzinho, claro. Mário, somos casados há vinte anos e você sabe o que gosto, no mínimo. Não gostou do presente, é isso?, ele perguntou ofendido. É piada, né?, ela desafiou. Essa bolsa é um tanto ridícula, não tem nada a ver comigo. Nada, na-di-nha. Você estava com quem quando comprou? Ângela, eu é que não estou entendendo nada. Ah, é filhinho? Com quem você estava na hora de comprar esse carnaval? Foi sugestão da vendedora da loja. Ah, que meigo, que bonitinho, que lindinho você. Nunca me traz um alfinete e quando chega com alguma coisa é assim. Pois, pode devolver à loja. Eu tenho certeza que foi alguma putinha que você tá pegando que sugeriu você aparecer com um presentinho. E nem vou mandar você levar a bolsa para ela, que sei que a sujeita vai é gostar. Boa noite.

16.1.10

doce vício

Estou em cima da árvore. Daqui, vejo a rua. A menina da casa azul vai para a escola com sua mochila vermelha e sua bota ortopédica. A velhinha que tem um cachorro mesclado marrom com preto passa com seu vestido florido e com as mãos cheias de sacolas com frutas dentro. Seu Leopoldo que passa bicho, passa dando baforadas em seu cachimbo e mancando. Aninha que trabalha na Sorveteria Doce Vício com um minishort e uma miniblusa e eu quase caio da mangueira. Eu não contei pra ninguém, mas toda vez que Aninha passa, meu negocinho cresce. Eu não deixo ninguém ver. Por isso, fico aqui em cima. Me escondo por trás dos galhos e fico esperando ela passar. É só ela aparecer que meu negocinho começa a crescer, dói um pouquinho, mas é bem bom. E quando fico mexendo mexendo no meu negocinho eu estico meu corpo que parece que estou com ataque de epilepsia feito o filho de dona Geruza. E sai um olinho quando eu fico me esticando. Um dia, foi tão bom na hora que fiquei me esticando que fiquei fazendo um barulho feito um cachorro. Fiquei pensando que ia morrer.

15.1.10

"vou enfiar o dedo no cu dela"

Foto de Ivana Moura.

PLAYDOG
Janeiro de Grandes Espetáculos.
14 de janeiro de 2009.
Elenco: Auricéia Fraga, pascoal Filizola e eu (Cleyton Cabral)
Encenação: Alisson castro, Rafael Barreiros e Rodrigo Cunha.

13.1.10

Edifício Amor

Eu casei com o Jonas por interesse. O que mais me interessava nele era o fato dele não ter medo de altura. Meu único e grande interesse. Sempre passava para ir trabalhar e ele estava lá em cima. Chamo-me Tereza e trabalho como recepcionista de um escritório de advocacia. O Jonas é ajudante de pedreiro e trabalhava na construção do enorme edifício, que na verdade na verdade fica em frente ao escritório que trabalho. Eu ficava olhando-o por trás do vidro da recepção. Ele lá em cima, tijolo a tijolo, e eu entre agendas, telefonemas e post it’s. Enquanto os advogados do escritório se digladiavam para agarrar as melhores causas, meu amorzinho construía um arranha-céu que tocava quase o céu. A Torre de Babel em minha frente e meu homem lá, livre, pássaro sem asas, mas no ar. Estar lá em cima era mesmo que voar. Nos casamos de branco. O homem mais interessante do mundo voou para os meus braços. Eu fazia café, almoço e jantar, prendada que sou. Mandei bordar nossos nomes nas fronhas dos travesseiros. Jonas dos braços fortes de juntar tijolos com cimento, Jonas do tórax ampliado pelas dezenas de marinheiros antes de ir trabalhar, Jonas do abraço que abraça com a maior força de dentro. Jonas sabia amar uma mulher. Quando transávamos, eu me sentia lá no alto do edifício que ele ajudou a levantar, suspensa. Jonas me deixava no ar como uma bolinha de sabão. E estourávamos de prazer. Foi uma quarta-feira, ainda lembro a hora, três e quarenta e sete da tarde, quando chegou a notícia no escritório: Jonas caiu de um andaime, em uma das construções. Meu coração saiu pela boca e pulsou ali, na frente dos meus superiores, vermelho. Corri até o local. Multidão. E meu amorzinho estatelado no chão. Olhos abertos, ele falou sem fala, só com os olhos. Desesperei-me e mandei todo mundo ir para sua casa, que meu Jonas não era um espetáculo ao vivo, Paixão de Cristo. Misericórdia, meu homem voou e não tinha asas. Ele foi fechando os olhinhos devagar. Até hoje sinto saudades do abraço que abraçava com toda a força de dentro.